Levantamento aponta uso de perfis com poucos seguidores para financiar anúncios políticos nas redes sociais durante dois meses
Uma rede de páginas praticamente invisíveis ao público movimentou cifras milionárias nos bastidores das redes sociais. Perfis com poucas centenas de seguidores no Instagram e no Facebook investiram mais de R$ 1,1 milhão em anúncios patrocinados com calúnias e difamação do senador Flávio Bolsonaro e do governador Tarcísio de Freitas, revelando uma estratégia de impulsionamento que chamou a atenção pelo alto volume de recursos empregados, e pela dificuldade de identificar os responsáveis pelas publicações. Em vez de concentrar grandes quantias em poucos anúncios, as páginas optaram por distribuir pequenos valores em centenas de postagens patrocinadas, ampliando o alcance do conteúdo, e reduzindo os impactos caso parte das publicações fosse removida pelas plataformas.
De acordo com o levantamento, as páginas tinham menos de 400 seguidores cada, mas impulsionaram mais de mil publicações ao longo de aproximadamente dois meses. Outra estratégia utilizada para dificultar a moderação automática foi o uso de legendas genéricas, sem relação com o conteúdo político dos vídeos e imagens. Frases como “A discussão aumentou e trouxe novas interpretações. Compartilhe sua opinião!” acompanhavam publicações críticas, em uma tentativa de evitar que os sistemas das plataformas identificassem automaticamente o teor político das mensagens. Três dessas páginas, criadas em maio, deixaram de existir após o período de impulsionamento, enquanto outras quatro passaram a atuar em junho, ampliando a divulgação de conteúdos contra Flávio Bolsonaro e outros representantes da direita.
Estratégia sob análise
Somente em junho, as quatro novas páginas desembolsaram R$ 247 mil em publicidade nas plataformas da Meta. Entre os dias 17 e 23 de junho, o grupo investiu R$ 135 mil em anúncios, ficando atrás apenas do governo federal entre os maiores anunciantes do período, segundo dados da própria empresa. O elevado volume de recursos empregado por páginas com baixa visibilidade reacendeu o debate sobre os mecanismos de transparência da publicidade política digital e sobre a facilidade de disseminação de campanhas por meio de perfis pouco conhecidos do público.
Até o momento, não há informação pública que identifique os responsáveis pelo financiamento das campanhas nem indicação de eventual ilegalidade confirmada pelas autoridades. Especialistas avaliam que a pulverização dos anúncios entre diversas páginas dificulta o rastreamento dos financiadores, e torna mais complexa a fiscalização por parte das plataformas e dos órgãos de controle. A divulgação do caso aumenta a pressão por investigações sobre a origem dos recursos utilizados, e reforça a discussão sobre possíveis mudanças nas regras de transparência e monitoramento da publicidade política nas redes sociais durante períodos de maior mobilização eleitoral.