Receio de julgamentos leva pacientes a adiarem consultas, omitirem informações e comprometerem diagnósticos e tratamentos
A relação entre paciente e profissional de saúde é construída, sobretudo, pela confiança. No entanto, para muitas pessoas LGBTQIAPN+, esse vínculo ainda enfrenta obstáculos antes mesmo do primeiro atendimento. O receio de vivenciar situações de preconceito faz com que consultas, exames e tratamentos sejam adiados ou até abandonados, além de levar muitos pacientes a esconderem informações importantes sobre orientação sexual, identidade de gênero, práticas sexuais e dinâmica familiar. Segundo Jonas Moreira, psicólogo e assistente administrativo do Núcleo Técnico Regional de São Paulo do CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, essa realidade é consequência de um histórico de exclusão social.“Historicamente, a população LGBTQIAPN+ vem enfrentando uma invisibilidade estrutural que anula sua subjetividade e seus direitos básicos”, afirma. Para ele, a invisibilidade estrutural vivenciada por essa população compromete o acesso aos direitos básicos, e faz com que o medo da estigmatização nos serviços de saúde aprofunde ainda mais as desigualdades no cuidado e na prevenção.
Ao evitar compartilhar aspectos fundamentais de sua vida durante as consultas, muitos pacientes acabam dificultando uma avaliação clínica mais precisa. De acordo com Moreira, a omissão dessas informações limita a capacidade dos profissionais de oferecer diagnósticos corretos e tratamentos adequados às necessidades de cada indivíduo. Além disso, essa experiência constante de preconceito favorece o desenvolvimento do chamado “estresse de minoria”, conceito utilizado para descrever os impactos físicos e emocionais provocados pela exposição contínua à discriminação. Ansiedade, depressão, insônia, hipervigilância, e diversos sintomas físicos passam a fazer parte da rotina de quem convive com esse cenário, alimentando um ciclo de isolamento social, desconfiança institucional, e afastamento dos serviços de saúde.
Acolhimento faz diferença
As dificuldades, entretanto, não começam apenas dentro do consultório. Barreiras invisíveis também aparecem nas etapas iniciais do atendimento, como no cadastro e na recepção. Segundo Luana Silva, assistente social do Hospital Dia Campo Limpo, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo gerenciada pelo CEJAM, o desrespeito ao nome social permanece entre as principais reclamações da população trans e travesti. "Muitas vezes, pessoas trans e travestis que apresentam documentos ainda não retificados preferem não solicitar o uso do nome social por receio de que a forma como se identificam não seja reconhecida durante o atendimento", relata. Embora o uso do nome social seja garantido pelo Sistema Único de Saúde desde 2009, por meio da Portaria nº 1.820 do Ministério da Saúde, especialistas ressaltam que sua aplicação ainda enfrenta desafios em diversas unidades de saúde, tornando o acolhimento um fator decisivo para garantir segurança e confiança aos usuários.
Apesar das dificuldades, profissionais da área observam avanços graduais impulsionados pela ampliação de políticas públicas voltadas à diversidade e pela maior inclusão do tema na formação dos trabalhadores da saúde. Ainda assim, os especialistas defendem que a construção de um sistema verdadeiramente inclusivo depende de mudanças permanentes nas instituições. Para Jonas Moreira, o acolhimento seguro precisa deixar de ser uma iniciativa individual e se tornar uma diretriz organizacional, sustentada por protocolos claros, capacitação contínua das equipes e garantia absoluta de sigilo. Luana Silva reforça que a efetivação dos princípios de universalidade, integralidade e equidade do SUS passa também pelos pequenos gestos cotidianos, como o respeito ao nome social, a escuta qualificada, e o tratamento digno desde a recepção. Segundo ela, criar um ambiente acolhedor fortalece a confiança entre paciente e serviço de saúde e pode representar um passo fundamental para salvar vidas.