Em tempos de Copa do Mundo, é natural que voltemos nossos olhos para os grandes ídolos do esporte. Afinal, o futebol continua sendo uma das maiores paixões do planeta e uma das linguagens universais capazes de unir culturas, gerações e nacionalidades.
Mas, para mim, os maiores ensinamentos que recebi do futebol não vieram dos gols, dos títulos ou das estatísticas. Vieram dos atletas. E poucas pessoas representam tão bem essa combinação de talento, caráter, liderança e humildade quanto Arthur Antunes Coimbra. Simplesmente Zico.
Sou suspeito para falar. Sou flamenguista desde criança e vivi uma das fases mais gloriosas da história do Flamengo. Ainda me lembro das quartas-feiras à noite e dos domingos ensolarados indo caminhando para o Maraca com meu pai. Eu tinha apenas 11 anos quando vi aquele time extraordinário conquistar o mundo em 1981.
Para minha geração, Zico não era apenas o camisa 10. Era o líderr; era a referência; era o exemplo. Várias vezes depois, tive a oportunidade de encontrá-lo pessoalmente. Em eventos de empresa, no condominio que seu filho morava, na Gávea, etc. Enfim, confesso algo que talvez seja ainda mais admirável do que tudo o que ele fez dentro de campo: Zico continua sendo exatamente aquilo que sempre aparentou ser.
Humilde, educado, atenciososo, generoso, autêntico e, acima de tudo: HUMANO! Meu encontro mais recente com ele aconteceu no FutSummit 2026, na Cidade da Artes, no Rio de Janeiro. E mais uma vez saí de lá impressionado. Não pelo ex-jogador. Mas pelo ser humano.
Em uma época em que tantas pessoas confundem notoriedade com superioridade, Zico continua tratando todos com respeito, atenção e simplicidade. Continua ouvindo mais do que falando. Continua demonstrando uma elegância que vai muito além do futebol. E isso me fez refletir sobre uma característica que os grandes líderes possuem em comum. A verdadeira liderança não precisa se impor. Ela inspira.
Conheci profissionais extremamente competentes. Alguns brilhantes tecnicamente. Outros estrategicamente excepcionais. Mas, os líderes que mais deixaram marcas positivas para mim, foram aqueles que combinavam competência com humanidade. E Zico representa exatamente isso. Seu legado não foi construído apenas pelos gols marcados ou pelos títulos conquistados. Foi construído pela coerência. Pela consistência. Pela forma como conduziu sua carreira e sua vida. Por isso não me admira nada ele ser considerado um Samurai no Japão.
Em um mundo corporativo cada vez mais acelerado, observamos uma obsessão crescente por resultados imediatos. Muitas organizações promovem profissionais pela capacidade técnica e esquecem de avaliar algo fundamental: o caráter, a ética e a forma com que trata os demais, principalemente seus subordinados.
A verdade é que resultados abrem portas mas, somente os valores é que mantêm essas portas abertas. O que admiramos em líderes como Zico é justamente essa capacidade de permanecer fiel aos seus princípios mesmo depois de alcançar o sucesso. E, talvez seja por isso que ele seja respeitado não apenas pelos flamenguistas. Poucos atletas conseguem algo tão raro: ser admirados até pelos torcedores rivais.
Isso acontece porque existe uma diferença enorme entre ser reconhecido e ser respeitado. Reconhecimento pode vir do talento mas, respeito nasce da integridade. No ambiente empresarial acontece exatamente o mesmo. Existem executivos que conquistam posições de poder. Mas existem líderes que conquistam admiração genuína.
• Os primeiros são obedecidos; os segundos são seguidos.
• Os primeiros ocupam cargos; os segundos ocupam espaço na memória das pessoas.
Quando penso em Zico, penso em uma frase que utilizo frequentemente em minhas mentorias executivas: “O cargo lhe dá autoridade. O exemplo lhe dá liderança”.
O exemplo, o “walk the talk” não pode ser delegado, não pode ser terceirizado, não pode ser comunicado apenas através de discursos ou apresentações em PowerPoint. Ele é construído diariamente, através de atitudes consistentes.
E talvez seja exatamente por isso que, tantos anos depois de pendurar as chuteiras, Zico continue sendo uma referência. Não apenas para quem ama futebol. Mas para todos aqueles que acreditam que excelência e humildade não são características opostas; são complementares.
Porque no final das contas, pelo menos para mim, os maiores líderes não são aqueles que acumulam troféus; são aqueles que acumulam respeito. E poucos fizeram isso tão bem quanto o eterno camisa 10 da Gávea, o grande Samurai de Quintino!
Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus
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