Dados da PNAD Contínua de 2025 mostram que 22,7% dos domicílios brasileiros têm ao menos um beneficiário de transferência de renda do governo. No Norte e no Nordeste, a realidade é ainda mais acentuada: no Pará, 46,1% das famílias dependem de algum programa social; no Maranhão, 45,6%; no Piauí, 45,3%.
Os números confirmam tanto a importância quanto os limites dessas políticas. Para milhões de famílias, elas representam a diferença entre comida na mesa e a fome, entre filhos na escola e a evasão. Mas revelam, ao mesmo tempo, uma fragilidade histórica que vai além da renda: baixa escolaridade, qualificação profissional insuficiente e geração de empregos formais bem abaixo da demanda.
O risco do ciclo intergeracional
Transferência de renda salva vidas. Não é esse o ponto em debate. O problema surge quando ela não vem acompanhada de investimentos consistentes em educação, formação técnica e desenvolvimento econômico local, condições que poderiam, ao longo do tempo, reduzir a própria necessidade da assistência.
Filhos de famílias vulneráveis tendem a enfrentar as mesmas barreiras educacionais e profissionais dos pais. O resultado é uma pobreza que se reproduz por gerações, menos por falta de esforço e mais por falta de oportunidade estrutural.
O Brasil ainda convive com altos índices de analfabetismo funcional e com dificuldades persistentes em leitura, matemática e ciências. Milhares de jovens chegam ao fim do ensino médio sem acesso a formação técnica ou capacitação alinhada ao mercado de trabalho, e ingressam numa economia cada vez mais digital sem as ferramentas necessárias para competir nela.
Há décadas, sucessivas mudanças no sistema educacional brasileiro reduziram o nível de exigência acadêmica sem que houvesse avanços proporcionais na qualidade do ensino. A flexibilização das avaliações e a progressão continuada contribuíram para a formação de gerações com déficits de aprendizagem, refletidos nos baixos índices de proficiência em leitura, escrita e matemática. Em um cenário de elevada dependência de programas sociais, a combinação entre educação deficiente e baixa qualificação profissional compromete a produtividade, a empregabilidade e o desenvolvimento sustentável do país.
O que a experiência internacional mostra
Países que conseguiram reduzir a pobreza de forma duradoura não o fizeram apenas com transferência de renda. Investiram simultaneamente em educação de qualidade, formação profissional, infraestrutura, inovação e estímulo ao empreendedorismo.
No Brasil, o caminho passa pela ampliação do ensino técnico e profissionalizante, pela integração entre escolas e setor produtivo e pela criação de pontes reais entre a assistência social e o mercado de trabalho. Setores como energia limpa, agronegócio de precisão, logística, saúde e economia criativa demandam trabalhadores qualificados, e há espaço para ocupá-los.
A conta que o país terá de pagar
A equação fiscal complica o quadro. Com o envelhecimento da população, o aumento das despesas previdenciárias e as demandas crescentes por saúde e assistência, o Estado brasileiro enfrentará pressões cada vez maiores nas próximas décadas. Sem avanços em produtividade e emprego formal, a capacidade de sustentar políticas de proteção social em larga escala pode ser comprometida.
Em outras palavras: o futuro da proteção social depende diretamente da capacidade do país de qualificar sua força de trabalho e ampliar sua base produtiva.
O verdadeiro indicador de sucesso
O debate sobre programas sociais não precisa, e não deve, reduzido a uma disputa entre assistência e responsabilidade fiscal. A questão é outra: como transformar políticas emergenciais em instrumentos permanentes de mobilidade social?
Isso exige articulação entre União, estados, municípios, setor privado e instituições de ensino em torno de objetivos compartilhados: reduzir desigualdades regionais, elevar a qualidade da educação e ampliar a formação profissional.
O verdadeiro indicador de sucesso de uma política social não é o crescimento contínuo do número de beneficiários. É a queda, ao longo do tempo, na necessidade de recorrer à assistência. Garantir proteção aos mais vulneráveis é obrigação do Estado. Criar condições para que essas pessoas alcancem autonomia econômica é o desafio que definirá o futuro do país.
Felipe Masid é jornalista e gestor público, formado em Direito, e Administração de Empresas, com especialização em Gestão e Estratégia em Agronegócios pela UFRRJ. Atualmente é mestrando em Controladoria e Gestão Pública