Em tempos de Copa do Mundo, uma história que vivi me veio à lembrança...
Vivemos em uma época em que muitas pessoas confundem visibilidade com relevância, fama com legado, e exposição com grandeza. As redes sociais ampliaram vozes, mas também criaram a ilusão de que ser importante é ser conhecido. Ao longo da minha carreira internacional, tive a oportunidade de conhecer líderes empresariais, políticos, celebridades, e atletas que alcançaram reconhecimento mundial. Alguns confirmaram as expectativas. Outros me surpreenderam. Mas poucos me marcaram tanto quanto Edson Arantes do Nascimento: o nosso Pelé, eterno.
Eu devia ter aproximadamente 26 anos quando o encontrei pela primeira vez. Estava fazendo uma das minhas primeiras viagens internacionais a trabalho. Para um jovem executivo brasileiro, encontrar o maior atleta da história do futebol mundial era algo quase inacreditável.
Lembro que me aproximei apenas para pedir uma foto.
Era isso.
Uma foto e um agradecimento.
Mas o que aconteceu em seguida me marcou para o resto da vida.
Pelé poderia simplesmente ter sido educado, sorrir para a foto, e seguir seu caminho. Afinal, quantas milhares de pessoas já não haviam pedido exatamente a mesma coisa? Mas ele fez algo diferente. Antes da foto, perguntou quem eu era. Quis saber o que eu fazia. Perguntou para onde eu estava viajando. Demonstrou interesse genuíno por alguém que, para ele, era apenas mais um desconhecido.
Naquele momento aprendi uma das maiores lições de liderança da minha vida: a verdadeira grandeza não diminui os outros, ela os valoriza.
Quanto mais segura uma pessoa é sobre quem ela é, menos necessidade ela tem de provar sua importância. E quanto maior sua grandeza, maior costuma ser sua capacidade de fazer os outros se sentirem importantes também.
Anos depois, após visitar mais de 75 países e trabalhar em cerca de 40 deles, passei a compreender outra dimensão do legado de Pelé.
Quando eu dizia que era brasileiro, invariavelmente surgiam duas palavras na conversa: futebol e Pelé. Não importava se eu estava na Ásia, no Caribe, no Cáucaso, na Europa Oriental ou na América Latina. O nome dele transcendia fronteiras, idiomas, religiões, e culturas. Pelé não era apenas um atleta admirado. Era um símbolo mundial.
Em muitos lugares, ele foi provavelmente o brasileiro mais conhecido da história. Antes mesmo de as pessoas conhecerem nossas empresas, nossa economia ou nossa política, elas já conheciam Pelé. Isso me fez refletir profundamente sobre liderança e legado.
Muitos profissionais passam a vida tentando construir sucesso. Poucos conseguem construir significado. O sucesso normalmente está relacionado ao que conquistamos. O legado está relacionado ao que deixamos.
O sucesso pode ser medido por números, cargos, patrimônio ou reconhecimento. O legado é medido pelo impacto que continuamos gerando mesmo depois que saímos de cena.
Pelé conquistou títulos, recordes e troféus. Mas o que o tornou eterno foi algo muito maior. Foi a forma como representou o Brasil para o mundo; a maneira como inspirou gerações; foi sua capacidade de permanecer humano mesmo ocupando um lugar quase inatingível no imaginário coletivo.
No ambiente corporativo acontece exatamente a mesma coisa. Conheço profissionais extremamente talentosos que são admirados por suas competências técnicas. Mas os líderes que realmente deixam marcas são aqueles que conseguem combinar excelência com humanidade.
- São aqueles que entram em uma sala e fazem as pessoas crescerem.
- São aqueles que utilizam sua influência para abrir portas para outros.
- São aqueles que entendem que liderança não é sobre aparecer. É sobre servir.
Talvez essa seja a maior lição que Pelé me deixou naquele breve encontro de muitos anos atrás. A verdadeira grandeza não está em quantas pessoas sabem quem você é; está em quantas pessoas saem melhores depois de terem cruzado o seu caminho.
E isso vale para atletas, executivos, empreendedores, políticos, e líderes de qualquer área. Porque títulos impressionam, mas caráter inspira. E inspiração é o que transforma pessoas comuns em referências eternas.
Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus
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