Novo espetáculo do Amok Teatro estreia no Sesc Copacabana e mergulha nas marcas do abandono, da maternidade interrompida e da violência estrutural no sistema prisional feminino brasileiro
Atrás das grades, o tempo parece suspenso. Mas, em Incondicionais, são as vozes que rompem o silêncio. No gabinete de atendimento de uma penitenciária feminina, relatos fragmentados revelam trajetórias atravessadas pela pobreza, pela violência e pela ausência de oportunidades. Em cena, mulheres privadas de liberdade deixam de ser números de processos para recuperar, ainda que por instantes, sua condição mais essencial: a de seres humanos que desejam ser ouvidos.
Contemplado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, o novo espetáculo do Amok Teatro cumpre temporada de 25 de junho a 19 de julho de 2026, no Teatro Arena do Sesc Copacabana. Com direção e dramaturgia de Ana Teixeira e Stephane Brodt, vencedores do Prêmio Shell, a montagem é resultado de um intenso processo de pesquisa documental baseado em entrevistas, depoimentos, artigos e estudos sobre o encarceramento feminino. O elenco reúne Dai Ramos, Luciana Lopes, Sirlea Aleixo, Taty Aleixo e Thay Aleixo.
Escuta e resistência
Inspirada nos livros Cadeia – Relatos sobre mulheres, de Debora Diniz, Prisioneiras, de Drauzio Varella, Presos que Menstruam, de Nana Queiroz, e Prisioneiras – Vida e violência atrás das grades, de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz, a peça apresenta encontros entre detentas e as chamadas “jalecos brancos” — psicólogas e assistentes sociais que atuam no sistema prisional. Nesse espaço de acolhimento temporário, emergem histórias de maternidade interrompida, abandono e resistência, revelando as fissuras de um sistema que reduz vidas a relatórios, laudos e decisões judiciais.
Embora as mulheres representem cerca de 5% da população carcerária brasileira, o número de presas cresceu mais de 560% nos últimos 15 anos. O espetáculo parte desse cenário para lançar luz sobre uma realidade frequentemente invisibilizada e questionar a lógica de um sistema que ignora especificidades femininas, como gestação, maternidade e acesso à saúde. Sem a pretensão de retratar a totalidade do universo prisional, Incondicionais convida o público a refletir sobre a potência transformadora da escuta e sobre a urgência de reconhecer a complexidade humana por trás das estatísticas.