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Crítica — Brasil 70: A Saga do Tri

02/06/2026 04:26 Por Redação NTD

Série sacrifica a história em nome da ideologia e desperdiça um dos maiores capítulos do futebol

A conquista da Copa do Mundo de 1970 oferece material suficiente para uma das mais fascinantes produções já realizadas sobre esporte no Brasil. A campanha do tricampeonato reúne personagens lendários, disputas políticas, transformações sociais, e uma seleção considerada por muitos a melhor de todos os tempos. Porém, Brasil 70: A Saga do Tri, minissérie da Netflix produzida em parceria com a O2 Filmes, transforma esse vasto patrimônio histórico em uma narrativa excessivamente panfletária, e frequentemente desconectada dos fatos. Embora apresente qualidades técnicas inegáveis, a obra opta por recontar a história através de uma lente ideológica tão carregada que acaba comprometendo a credibilidade do drama, e reduzindo a complexidade de seus protagonistas a caricaturas previsíveis.

Entre os aspectos mais bem-sucedidos da produção está o trabalho de visagismo, que merece elogios entusiasmados. A maquiagem, os cortes de cabelo, as barbas, os bigodes, e toda a caracterização conseguem não apenas reproduzir a aparência dos personagens reais, mas também transmitir com eficiência a atmosfera estética do Brasil do final dos anos 1960. O grande destaque neste quesito é o estreante Lucas Agrícola no papel de Pelé. A semelhança física impressiona em um nível raramente visto em produções nacionais. Em diversos momentos, torna-se difícil distinguir onde termina o ator e onde começam as imagens de arquivo do verdadeiro Rei do Futebol. A combinação entre caracterização, enquadramentos, e interpretação cria uma ilusão visual extraordinária. Infelizmente, tanto Agrícola quanto o restante do elenco acabam prejudicados por uma direção que prefere enfatizar trejeitos e estereótipos em vez de construir personagens humanos e complexos.

Essa opção fica evidente na forma como a série retrata os principais nomes da campanha. A exceção mais notável é Rodrigo Santoro, que entrega uma das melhores atuações de sua carreira recente. Curiosamente, seu desempenho impressiona muito menos pela semelhança física com João Saldanha do que pelo talento dramático. Santoro consegue transmitir inteligência, carisma, e convicção política ao personagem, mesmo quando o roteiro não o ajuda. O problema é que o ator acaba aprisionado em uma narrativa que frequentemente distorce a importância histórica dos acontecimentos. A série concede a Saldanha um protagonismo muito maior do que ele efetivamente teve na conquista do tricampeonato, transformando-o no centro moral de uma história coletiva que envolveu dezenas de personagens muito mais decisivos.

O maior problema surge justamente na construção ideológica do conflito central. O roteiro assinado por Felipe Sant’Angelo, Maíra Oliveira, Naná Xavier, e Rafael Dornellas parece determinado a estabelecer uma divisão simplista entre mocinhos e vilões. João Saldanha é retratado como um herói quase incontestável, enquanto Mário Jorge Lobo Zagallo aparece como uma espécie de antagonista subordinado aos interesses da Ditadura Militar. A simplificação seria questionável em qualquer contexto, mas se torna ainda mais problemática quando aplicada a uma figura histórica do porte de Zagallo. O homem que conquistou quatro Copas do Mundo (duas como jogador, uma como técnico, e outra como coordenador técnico) surge frequentemente como um profissional incompetente, limitado, supersticioso, e dependente da sorte. A representação não apenas ignora sua reconhecida capacidade estratégica como empobrece um personagem que merecia tratamento muito mais equilibrado.

A mesma tendência aparece na representação de Pelé. O maior jogador da história do futebol é frequentemente retratado como uma figura insegura, hesitante, e excessivamente submissa aos acontecimentos ao seu redor. Nada poderia estar mais distante dos inúmeros relatos históricos sobre sua liderança dentro e fora de campo. A série parece desconfortável diante da possibilidade de reconhecer plenamente a grandeza de algumas de suas figuras centrais, preferindo enquadrá-las dentro de uma narrativa que favorece determinados discursos políticos. Como consequência, personagens históricos perdem profundidade e autenticidade, tornando-se peças de uma tese previamente estabelecida em vez de indivíduos complexos moldados pelas circunstâncias de seu tempo.

O direcionamento ideológico da obra aparece não apenas naquilo que ela mostra, mas também naquilo que parece evitar mostrar. Um exemplo revelador está na trilha sonora. Surpreende a decisão de praticamente ignorar “Pra Frente Brasil”, certamente a música mais emblemática da história das Copas do Mundo para os brasileiros. Em praticamente qualquer produção audiovisual sobre o tricampeonato, a canção ocuparia papel central como tema de abertura, clímax ou de encerramento. Aqui, ela aparece apenas por breves segundos. Evidentemente, o vínculo da música com a propaganda oficial da Ditadura Militar explica parte dessa escolha. O problema é que a série parece incapaz de separar o contexto político da importância cultural e histórica da composição. Independentemente do uso que o regime fez dela, “Pra Frente Brasil” tornou-se um símbolo real da conquista de 1970, e da memória afetiva de milhões de brasileiros. Ao minimizar sua presença, a produção deixa transparecer uma preocupação maior em sustentar sua interpretação política dos fatos do que em representar fielmente o ambiente emocional daquele momento histórico.

Ao final dos episódios, Brasil 70: A Saga do Tri deixa a sensação de uma oportunidade desperdiçada. Há excelência técnica, uma reconstrução visual admirável, e um tema naturalmente fascinante. No entanto, tudo isso acaba subordinado a um roteiro que frequentemente troca a complexidade histórica pela militância narrativa. A minissérie até consegue entreter e impressionar visualmente, mas falha justamente onde mais importava: na missão de compreender e retratar com equilíbrio um dos capítulos mais grandiosos da história do esporte brasileiro. Em vez de celebrar a riqueza dos fatos, prefere moldá-los para servir a uma interpretação específica, produzindo uma obra que certamente gerará debate, mas dificilmente será lembrada como a versão definitiva da saga do tricampeonato.

Leo Pinheiro é Diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame, e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova lorque.