Planalto tenta contato direto com Presidente dos EUA após decisão contra facções brasileiras que fortaleceu discurso do senador na corrida eleitoral
A decisão do governo de Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras provocou forte reação no Palácio do Planalto, e abriu uma nova frente de desgaste político para o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Internamente a avaliação de integrantes do governo é que a medida acabou representando uma vitória política para Flávio Bolsonaro, que esteve recentemente em Washington defendendo junto a autoridades americanas o enquadramento das facções. Diante do impacto da decisão, Lula passou a discutir diretamente com ministros e assessores uma estratégia de reação, e deseja realizar uma chamada de vídeo ou conversa direta com Trump para tratar do tema e tentar reduzir a tensão diplomática.
Segundo interlocutores do governo, o Presidente brasileiro ficou incomodado principalmente com a forma como a medida foi anunciada, sem aviso prévio ao Itamaraty ou ao Ministério da Justiça. A percepção dentro do Planalto é que a iniciativa fortaleceu politicamente Flávio Bolsonaro, e pode ser interpretada como um gesto de aproximação entre Trump e o principal nome da direita para a disputa presidencial de 2026. Auxiliares de Lula tentam emplacar a versão de que o Presidente dos Estados Unidos talvez não participou diretamente da formulação da decisão, e que ela tenha sido impulsionada por setores mais ideológicos da administração norte-americana, razão pela qual o governo brasileiro vê espaço para uma interlocução direta entre os dois líderes.
Soberania X defesa das facções
Ao mesmo tempo em que prepara uma resposta diplomática, o governo busca construir uma narrativa que evite qualquer associação à defesa das organizações criminosas PCC e Comando Vermelho. A estratégia definida pelo núcleo político de Lula é concentrar o discurso na defesa da soberania nacional e nos possíveis impactos econômicos e institucionais da medida adotada pelos Estados Unidos. O Presidente chegou a mobilizar ministros durante toda a noite de quinta-feira, 28, para discutir cenários e solicitar estudos sobre eventuais prejuízos para a cooperação internacional e para setores da economia brasileira.
A crise também acelerou o embate político entre governo e oposição. Lula passou a associar a atuação de Flávio Bolsonaro a uma tentativa de incentivar interferências externas nos assuntos brasileiros, enquanto aliados do senador tratam a decisão americana como uma vitória no combate ao crime organizado. Em meio ao aumento da tensão, o Planalto pretende manter a linha de cooperação internacional contra facções criminosas, mas insiste que qualquer ação precisa ocorrer dentro dos limites da soberania brasileira. A possível conversa direta entre Lula e Trump é vista por assessores como uma tentativa de evitar o aprofundamento do desgaste diplomático e político gerado após uma decisão que, na avaliação do governo, acabou fortalecendo o principal adversário do Presidente na disputa pelo Palácio do Planalto.