Uso de dados comportamentais avança nas organizações para orientar liderança, retenção e prevenção de riscos
O que antes era tratado como um tema sensível e periférico nas empresas agora ocupa posição central nas decisões estratégicas. A saúde emocional dos colaboradores deixou de ser uma pauta restrita ao RH e passou a influenciar diretamente indicadores de desempenho, produtividade e sustentabilidade dos negócios. Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, em 2025, foram concedidos 546.254 benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais, com destaque para quadros de ansiedade e depressão, que lideraram os afastamentos no país. Esse cenário pressiona empresas a adotarem uma postura mais estruturada e preventiva, deixando de agir apenas quando o problema já impacta resultados e passando a incorporar a saúde emocional como parte da gestão estratégica de pessoas.
Para a psicóloga e advogada Jéssica Palin Martins, o avanço do adoecimento mental no ambiente corporativo evidencia a limitação de modelos baseados exclusivamente em percepção. Segundo ela, a gestão de pessoas precisa evoluir para uma abordagem orientada por dados, capaz de identificar padrões e antecipar riscos. “Gestão de pessoas sem diagnóstico é baseada em suposição. Com dados, a liderança ganha precisão para agir”, afirma. Nesse contexto, ferramentas de diagnóstico emocional passam a ocupar espaço relevante ao permitir o mapeamento de sobrecarga, desalinhamentos, conflitos internos, queda de engajamento e até riscos de desligamento, antes que esses fatores se traduzam em afastamentos ou perda de talentos estratégicos.
Exigência legal e estratégica
A mudança não ocorre apenas por pressão interna das organizações, mas também por exigências legais e transformações no perfil da força de trabalho. A Lei nº 14.831, sancionada em 2024, instituiu o Certificado Empresa Promotora da Saúde Mental, enquanto a Portaria MTE nº 1.419 atualizou a NR-1 ao incluir fatores de risco psicossociais no gerenciamento de riscos ocupacionais. Ao mesmo tempo, pesquisas como a Gen Z and Millennial Survey 2025, da Deloitte, mostram que a saúde mental figura entre as principais preocupações dos jovens profissionais brasileiros, ao lado de questões econômicas e ambientais. Esse cenário exige das empresas políticas mais consistentes, baseadas em escuta ativa, desenvolvimento contínuo e revisão das práticas de liderança e organização do trabalho.
Com o aumento expressivo dos afastamentos e a maior cobrança por ambientes saudáveis, a saúde emocional passa a ser tratada como indicador-chave de desempenho e risco corporativo. Dados do próprio Ministério da Previdência Social indicam que mulheres representaram 63,46% dos benefícios concedidos por transtornos mentais em 2025, enquanto estados como São Paulo e Minas Gerais concentram os maiores volumes de casos, reforçando a dimensão estrutural do problema. Para especialistas, fatores como excesso de demanda, comunicação ineficiente, metas pouco claras e ausência de preparo das lideranças continuam no centro da questão. Nesse cenário, o uso de dados comportamentais tende a se consolidar como ferramenta essencial para transformar informação em ação concreta, reposicionando a saúde emocional como elemento estratégico para a sustentabilidade e competitividade das empresas.