Alta nos afastamentos por transtornos mentais acende alerta sobre impacto da ansiedade e da sobrecarga emocional na produtividade e na vida cotidiana
O esgotamento emocional deixou de ser um tema silencioso para se tornar um indicador concreto da realidade brasileira. Em 2025, o país registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos mentais, segundo o Ministério da Previdência Social; o maior número da última década. O dado reforça uma mudança de percepção: saúde mental não é mais apenas uma questão individual, mas um fator que afeta diretamente o desempenho profissional, as relações e a qualidade de vida.
Para a psicanalista Elainne Ourives, estados emocionais prolongados de medo, insegurança, culpa e autossabotagem comprometem a clareza cognitiva e a capacidade de tomada de decisão. “Quando a mente opera continuamente em estado de alerta, as decisões passam a ser guiadas pela tensão, não pela clareza”, afirma. O cenário é global: o relatório State of the Global Workplace 2025, da Gallup, aponta que 41% dos trabalhadores no mundo relatam estresse diário — um dos principais desafios da saúde ocupacional.
Quando o alerta vira padrão
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, ambientes marcados por pressão constante, jornadas extensas e baixa autonomia elevam significativamente o risco de sofrimento psíquico. Esse estado contínuo de hipervigilância desgasta a energia mental, afeta o sono, reduz a capacidade de foco e amplia conflitos interpessoais. “A mente passa a antecipar ameaças o tempo todo, e qualquer contratempo ganha proporções maiores”, explica Elainne.
Na prática, esse funcionamento aparece em sinais recorrentes — muitas vezes normalizados pela rotina intensa:
- Dificuldade de concentração e queda de desempenho
- Procrastinação e sensação de bloqueio mental
- Irritabilidade frequente e baixa tolerância
- Fadiga persistente, mesmo após descanso
- Insônia e dificuldade de “desligar” fora do trabalho
Segundo a especialista, o problema nem sempre é percebido de imediato. “Muitas pessoas acreditam que estão apenas cansadas, quando já operam sob tensão contínua”, diz. O impacto atinge inclusive profissionais experientes: não é falta de competência, mas um bloqueio emocional que interfere na execução.
A reversão desse quadro passa, прежде de tudo, pelo reconhecimento. Identificar os sinais precocemente ajuda a evitar o agravamento. Estratégias como pausas reais ao longo do dia, organização do sono, atividade física e observação de padrões de pensamento podem reduzir a sobrecarga. Em casos persistentes, o acompanhamento profissional se torna necessário. Para Elainne, o ponto crítico é quando emoções deixam de ser reações pontuais e passam a definir o modo de funcionamento mental. “Sentir medo ou insegurança é natural. O problema surge quando essas emoções se tornam permanentes e passam a moldar decisões e comportamentos”, conclui.