Espetáculo que aborda racismo e homofobia no esporte estreia nova temporada no TUSP, em São Paulo, após sucesso no Sesc Ipiranga
No ringue da vida real, nem sempre o golpe mais duro vem do adversário — e é justamente essa tensão que move “12º Round: A História de Emile Griffith”, espetáculo que retorna aos palcos em nova temporada no TUSP, de 21 de maio a 14 de junho. Com uma linguagem que mistura teatro, memória e combate físico, a montagem mergulha na trajetória do boxeador Emile Griffith para expor feridas ainda abertas: o racismo, a homofobia e os limites impostos à masculinidade negra. Em cena, Alexandre Ammano, Fernando Vitor e Letícia Calvosa conduzem o público por uma narrativa intensa, construída como uma luta em rounds.
Apesar de uma carreira brilhante — marcada por cinco títulos mundiais em três categorias — Griffith enfrentou uma batalha fora dos ringues ao assumir sua bissexualidade. Sua história é atravessada por um episódio emblemático: a luta contra Kid Paret, em 1962, que terminou de forma trágica após insultos homofóbicos e um nocaute fatal transmitido ao vivo nos Estados Unidos. A peça utiliza esse episódio como ponto de partida para refletir sobre as violências simbólicas e reais que ainda persistem no esporte e na sociedade, ampliando o debate para os dias atuais.
Teatro em combate
Idealizado por Fernando Vitor e com texto de Sérgio Roveri e direção de Bruno Lourenço, o espetáculo propõe uma encenação estruturada como uma luta de boxe: são 12 rounds que alternam intensidade, exaustão e pausa, criando uma experiência física e emocional. A montagem marca ainda a estreia do Coletivo Nocaute, grupo de teatro negro que investiga narrativas apagadas e identidades dissidentes. A presença de nomes importantes do boxe brasileiro na estreia — como Servílio de Oliveira, Danila Ramos e a árbitra Marcela Souza — reforça o diálogo entre palco e realidade.
Ao dar voz a figuras que orbitam a vida de Griffith — de sua mãe a jornalistas e parceiros afetivos —, a peça constrói uma cartografia sensível que mistura memória, política e ficção. Com o uso de projeções, trilha sonora marcada por referências do cinema e uma narrativa fragmentada, “12º Round” transforma o ringue em um espaço simbólico onde corpo, desejo, dor e resistência se confrontam. Mais do que recontar a história de um campeão, o espetáculo reivindica seu lugar na memória coletiva e questiona por que trajetórias como a de Griffith ainda permanecem à margem, mesmo diante de sua relevância histórica.