Redução de 71% no número de empresas no Programa Empresa Cidadã acende alerta sobre acolhimento à parentalidade nas empresas brasileiras
Os números não mentem, e, neste caso, preocupam. Um levantamento da Receita Federal do Brasil revela uma queda brusca na adesão ao Programa Empresa Cidadã, escancarando um recuo no apoio institucional à maternidade e à paternidade no ambiente corporativo. Em um país onde conciliar trabalho e família ainda é um desafio cotidiano, o encolhimento desse tipo de política levanta dúvidas sobre o compromisso das empresas com o bem-estar de seus profissionais.
De acordo com os dados, o número de empresas participantes despencou de 30.545 em 2024 para 8.862 em 2025; uma redução de cerca de 71%. Em 2026, o total permaneceu praticamente estável, com 8.858 organizações cadastradas. Criado em 2008, o programa permite a ampliação da licença-maternidade de 120 para 180 dias e da licença-paternidade de cinco para 20 dias, mediante incentivos fiscais, funcionando como uma importante ferramenta de apoio às famílias.
Impactos e desafios
Segundo o gestor de carreiras e professor universitário Ricardo Machado, o enfraquecimento dessas políticas pode gerar consequências diretas tanto para os trabalhadores quanto para as empresas. Ele destaca que a licença estendida vai além de um benefício legal, sendo um instrumento de acolhimento e valorização profissional. “Quando esse suporte diminui, aumentam também os riscos de desgaste emocional, perda de produtividade e rotatividade”, afirma. A queda na adesão está ligada a uma auditoria realizada em 2024, que excluiu mais de 22 mil empresas por irregularidades cadastrais ou incompatibilidade com o regime tributário exigido.
Paralelamente, outro dado reforça o alerta: mais de 380 mil mulheres foram desligadas do trabalho nos últimos cinco anos após retornarem da licença-maternidade, segundo registros do eSocial analisados pela Secretaria de Inspeção do Trabalho. Para Machado, o cenário evidencia a necessidade de políticas mais consistentes, que incluam desde flexibilização de jornada até apoio psicológico e incentivo à licença-paternidade ampliada. “A maternidade não pode ser tratada como obstáculo profissional, mas como parte de uma agenda estratégica para relações de trabalho mais humanas e sustentáveis”, conclui.