Com altos índices de ansiedade e depressão, especialistas alertam para o papel da nutrição e do suporte social no combate ao burnout em mulheres
O Brasil enfrenta uma crise silenciosa que atinge o cerne da estrutura familiar: a saúde mental feminina. Dados recentes revelam que o país apresenta um cenário alarmante, com 26,8% da população diagnosticada com transtornos de ansiedade e 12,7% com depressão. O recorte de gênero é implacável, demonstrando que as mulheres são as principais vítimas dessas patologias. Este fenômeno não é isolado, mas sim o reflexo de uma sociedade que ainda sobrecarrega a figura feminina com múltiplas jornadas, onde o cuidado com o outro frequentemente anula o cuidado consigo mesma.
Dentro deste panorama, a realidade das mães solo surge como um dos fatores de maior vulnerabilidade. Atualmente, o Brasil contabiliza mais de 11 milhões de mulheres que chefiam lares sozinhas, enfrentando o isolamento da responsabilidade financeira e emocional. Expostas a uma sobrecarga ininterrupta, esse grupo torna-se o epicentro de uma exaustão que ultrapassa o cansaço físico. Não é por acaso que 7 em cada 10 diagnósticos de ansiedade e depressão no país são atribuídos ao público feminino, evidenciando que a estrutura de suporte à maternidade no Brasil está em colapso.
A exaustão extrema, frequentemente descrita como burnout materno, ainda carece de diagnósticos precisos e políticas públicas específicas. Diferente do estresse passageiro, o burnout na maternidade é uma síndrome de esgotamento profundo que compromete a capacidade de resposta emocional e a saúde física da mulher. A invisibilidade desse problema agrava o quadro, pois muitas mães sentem culpa por manifestarem sintomas de colapso, temendo o julgamento social. A conscientização sobre os limites do corpo e da mente é o primeiro passo para reverter essa estatística severa.
No campo da ciência e do tratamento preventivo, a nutrição desponta como uma ferramenta estratégica fundamental e, por vezes, subestimada. A alimentação possui um papel direto na modulação do estresse, interferindo na inflamação sistêmica e na resposta hormonal do organismo. Nutrientes específicos têm a capacidade de atuar na neuronutrição, auxiliando o cérebro a gerenciar melhor os picos de cortisol e a produção de neurotransmissores como a serotonina. Uma estratégia alimentar adequada não substitui o acompanhamento psicológico, mas funciona como um alicerce biológico indispensável para a resiliência mental.
Portanto, o combate à ansiedade e ao burnout materno exige uma abordagem multidisciplinar que integre saúde física e mental. É necessário que o debate público avance focando em soluções práticas que incluam desde a divisão justa do trabalho doméstico até o acesso a orientações nutricionais que combatam a fadiga adrenal. A mulher brasileira, pilar econômico e afetivo da nação, precisa de uma rede de apoio que sustente quem, por tanto tempo, sustentou sozinha os lares do país. Em suma, a saúde mental não deve ser tratada como um luxo, mas como uma prioridade de saúde pública.
Ao unirmos a conscientização sobre a sobrecarga materna com estratégias modernas e suporte psicológico, abrimos caminho para uma sociedade menos inflamada e mais equilibrada. O alerta está dado: cuidar de quem cuida é o único caminho viável para uma população saudável e funcional, garantindo que o diagnóstico de hoje não se torne a tragédia de amanhã.
Graça Duarte é jornalista, escritora, psicanalista e parapsicóloga. Atua nas áreas de assessoria de comunicação, gestão de tráfego, projetos, eventos, cursos e palestras; e escreve sobre bem-estar e saúde mental no Notícia Todo Dia.