Ação pode derrubar milhares de ofertas irregulares e reacende debate sobre uso indevido de habitação popular na maior cidade do país
Uma espécie de “caça invisível” começou a redesenhar o mapa dos aluguéis por temporada em São Paulo. A plataforma Airbnb deu início a um pente-fino em anúncios suspeitos e colocou no radar imóveis classificados como Habitação de Interesse Social (HIS), destinados à população de baixa renda. O movimento, que ocorre longe dos holofotes, pode provocar uma retirada em massa de ofertas e atingir diretamente proprietários que vinham utilizando essas unidades de forma irregular para locações de curta duração.
A ofensiva ganhou força após a Prefeitura encaminhar à empresa uma lista com empreendimentos enquadrados como moradia social, cuja utilização para fins comerciais é proibida por legislação municipal. Com base nesses dados, o Airbnb passou a notificar anfitriões e a revisar cadastros, abrindo caminho para a exclusão de anúncios que violem as regras. A medida ocorre em um contexto de maior fiscalização e pressão institucional, após denúncias de que imóveis subsidiados estariam sendo desviados de sua função original para gerar lucro, distorcendo políticas públicas de habitação.
Cerco às irregularidades
O pente-fino é reflexo direto do avanço das investigações conduzidas por uma CPI na Câmara Municipal, que apura o uso indevido de unidades populares em plataformas digitais. Parlamentares apontam que o problema se tornou sistêmico, envolvendo desde pequenos proprietários até esquemas mais estruturados de exploração imobiliária. A pressão política sobre empresas de tecnologia aumentou significativamente nos últimos meses, exigindo respostas mais rígidas e mecanismos de controle mais eficazes por parte dessas plataformas.
Apesar do avanço, o processo ainda enfrenta entraves práticos. A lista enviada pela Prefeitura apresenta inconsistências e lacunas que dificultam a identificação precisa de todos os imóveis, o que pode atrasar ou até comprometer parte das remoções. Ainda assim, o movimento marca um ponto de inflexão no mercado: ao mesmo tempo em que tenta corrigir distorções, expõe o conflito entre inovação digital e regulação urbana — e coloca em xeque os limites do uso de plataformas globais em políticas locais de habitação.