Expectativa de maior oferta no Brasil, avanço da colheita e reposicionamento de investidores derrubam cotações nas principais bolsas internacionais
O aroma do café segue forte nas lavouras brasileiras, mas perdeu intensidade no mercado internacional: abril termina com um gosto amargo para os preços. Embalado pela expectativa de uma safra robusta no Brasil, maior produtor e exportador global, o mercado encerrou o mês em queda consistente, refletindo não apenas o aumento da oferta projetada, mas também a mudança de humor dos agentes financeiros. A combinação entre fundamentos mais frouxos e ajustes técnicos nas bolsas reforçou a pressão negativa, em um cenário no qual o avanço da nova safra começa a ganhar peso nas decisões comerciais e nas apostas do mercado futuro.
Nas principais bolsas internacionais, os contratos do arábica negociados em Nova Iorque acumularam recuos relevantes ao longo do dia, e também no fechamento mensal, com perdas distribuídas entre diferentes vencimentos. Em Londres, o robusta acompanhou o movimento de baixa, consolidando um ambiente global de desvalorização para o complexo cafeeiro. A pressão vem, sobretudo, das projeções de uma produção mais volumosa no ciclo 2026/27, o que amplia a expectativa de oferta disponível no curto e médio prazo. Diante disso, fundos e investidores passaram a rever posições, reduzindo exposições compradas e intensificando o movimento de correção dos preços após períodos anteriores de alta.
Safra no radar
O avanço, ainda que gradual, da colheita nas principais regiões produtoras do Brasil também contribui para o viés negativo do mercado. Mesmo sem atingir seu pico, a entrada da safra no circuito comercial já é suficiente para alterar expectativas, e influenciar diretamente a formação de preços, especialmente neste momento de transição entre projeções e oferta efetiva. Além disso, condições climáticas relativamente favoráveis em importantes áreas produtoras reforçam a percepção de produtividade elevada, o que adiciona mais um elemento de pressão sobre as cotações internacionais, e aumenta a confiança do mercado em um cenário de maior disponibilidade do grão.
Apesar das quedas externas, o mercado físico brasileiro demonstrou certa resiliência ao longo de abril, com variações mais moderadas nos preços internos. Esse comportamento reflete, em grande parte, uma comercialização mais cadenciada e a postura estratégica dos produtores, que evitam vender volumes expressivos diante de um ambiente de volatilidade e incerteza. A retenção de oferta no curto prazo, somada a custos ainda elevados e à cautela quanto ao comportamento das cotações futuras, contribui para um descolamento parcial entre o mercado doméstico e o cenário internacional, mantendo o setor em compasso de espera.