Nos tempos atuais, a facilidade de criticar e emitir opiniões — sobretudo nas redes sociais — tem escancarado uma lacuna cada vez mais evidente nas interações humanas. Opinar virou reflexo; compreender, exceção. E talvez seja justamente aí que resida um dos maiores desafios do nosso tempo: reaprender a se colocar no lugar do outro.
Ao ouvir a psicóloga Valéria Mota, fica claro que essa capacidade de compreender o próximo não é apenas desejável, mas essencial — e, mais importante, treinável. A dificuldade de exercer a empatia, como ela aponta, já não se limita ao ambiente digital: está também nos encontros presenciais, nas conversas interrompidas, nos julgamentos apressados. Vivemos um momento em que é urgente rever a forma como comunicamos pensamentos e percepções, resgatando uma habilidade que deveria ser intrínseca: entender o que o outro sente ou pensa diante de uma situação.
A empatia, como explica Valéria ao dialogar com as ideias do psicólogo Paul Ekman, não é um gesto simples ou automático. Trata-se de um processo que envolve três dimensões: entender, sentir e agir com compaixão. Começa na leitura das expressões — muitas vezes silenciosas — e se desdobra na disposição de aliviar a dor alheia. Em outras palavras, exige presença, sensibilidade e, sobretudo, intenção.
Quando conseguimos, de fato, nos colocar no lugar do outro, criamos espaço para a solidariedade e fortalecemos a convivência. Ainda que alguns tenham mais facilidade natural, a empatia é uma habilidade que pode — e deve — ser desenvolvida. Reconhecer o outro como alguém que também busca aceitação é o primeiro passo para transformar conflitos em diálogos possíveis.
Nesse caminho, três pilares se mostram fundamentais: atenção, apreciação e afirmação. Prestar atenção de verdade ao que é dito, aceitar o lugar do outro mesmo diante de discordâncias e respeitar sem necessariamente concordar são atitudes que mudam o tom de qualquer interação. A escuta ativa e a linguagem não verbal acolhedora deixam de ser detalhes e passam a ser ferramentas essenciais para construir ambientes mais seguros e humanos.
Por fim, há um ponto que não pode ser ignorado: o autoconhecimento. Entender as próprias emoções é condição para compreender as dos outros. Como alerta Valéria, presumir que o outro sente exatamente como nós é um erro comum — e limitador. Desenvolver empatia é, antes de tudo, aceitar que somos diferentes, que enxergamos o mundo por lentes únicas e que é justamente essa diversidade que sustenta relações mais ricas e verdadeiras.
Graça Duarte é jornalista, escritora, psicanalista e parapsicóloga. Atua nas áreas de assessoria de comunicação, gestão de tráfego, projetos, eventos, cursos e palestras; e escreve sobre bem-estar e saúde mental no Notícia Todo Dia.