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Papo de Líderes

Trabalho: obrigação, propósito ou apenas uma questão de perspectiva?

02/05/2026 04:07 Por Redação NTD

Ontem, 1º de Maio, Dia do Trabalho, me peguei refletindo sobre algo que sempre foi muito natural para mim, mas que sei não ser uma realidade universal: eu nunca enxerguei o trabalho como uma obrigação.

Pelo contrário. Sempre senti muito prazer em trabalhar. Sempre gostei do que faço. E reconheço que com muita gratidão, e que isso muda completamente a experiência da jornada.

Talvez isso tenha raízes na minha educação. Cresci em um ambiente onde o trabalho era valorizado, não como peso, mas como dignidade. Meus pais sempre foram exemplos de disciplina, dedicação, e consistência. Não havia espaço para preguiça, mas também não havia discurso de sofrimento.

Na escola, mensagens como “o trabalho enobrece o homem” ou “Deus ajuda a quem cedo madruga” reforçavam essa visão. O trabalho não era castigo. Era construção.

Mas, ao longo da vida, especialmente nas minhas experiências internacionais e nas mentorias executivas que venho conduzindo, percebi algo importante: para muitas pessoas, o trabalho ainda carrega um significado completamente diferente.

A própria origem da palavra revela muito. “Trabalho” vem de tripalium, um instrumento de tortura da antiguidade. E, para muita gente, ainda hoje, trabalhar é exatamente isso: um fardo, um peso, um sacrifício inevitável.

O mais curioso é que, em muitos casos, não é o trabalho em si que gera esse sentimento, mas a forma como ele é percebido.

E é aqui que entra um conceito que uso com frequência nas minhas mentorias: o reframing. Mudar o ângulo; mudar a lente; mudar a narrativa interna.

Já vi profissionais completamente desmotivados reencontrarem energia simplesmente ao entenderem melhor o impacto do que fazem. Ao conectarem suas atividades diárias a algo maior. Ao descobrirem ou apenas reconhecerem um propósito que antes estava invisível.

Uso muito a abordagem do Simon Sinek: comece pelo porquê. Quando o “porquê” fica claro, o “o quê” ganha sentido. E o trabalho deixa de ser obrigação para se tornar contribuição.

Isso não significa romantizar tudo. Nem todo trabalho é ideal, nem toda função é inspiradora o tempo todo. Mas existe quase sempre uma forma mais consciente e intencional de enxergar o que fazemos.

E, curiosamente, ao longo dessa reflexão, percebi algo sobre mim mesmo: 

Se por um lado sempre tive facilidade em trabalhar com intensidade e prazer, por outro ainda estou aprendendo a valorizar algo que considero igualmente importante: o ócio, o lazer, o descanso.

Talvez pela mesma educação que me impulsionou tanto para o trabalho, eu ainda esteja em processo de evolução nessa área.

Costumo brincar que sou um “work in progress” quando o assunto é desacelerar. E talvez esse seja o verdadeiro equilíbrio que a liderança moderna exige: saber trabalhar com propósito, sem esquecer de viver com presença.

Por isso, deixo uma reflexão para você nesta semana do Dia do Trabalho:

O seu trabalho é, de fato, um peso… Ou pode estar faltando apenas um novo ângulo para enxergá-lo. Porque, às vezes, não é a realidade que precisa mudar, mas, sim, a forma como escolhemos interpretá-la.

Você enxerga seu trabalho como obrigação ou como algo nobre, como um tempo bem investido?

Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus.

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