Espetáculo em cartaz no Centro do Rio expõe ciclos de abuso e propõe reflexão sobre o aumento dos feminicídios no Brasil
Em um cenário onde a realidade insiste em ser mais dura que a ficção, o teatro assume o papel de denúncia e escuta. Em cartaz de 7 a 29 de abril, no Centro Cultural Justiça Federal, na Cinelândia, o espetáculo “O Último Dia” emerge como uma obra potente e necessária ao lançar luz sobre os ciclos silenciosos de controle, medo e violência que marcam relacionamentos abusivos no Brasil.
Baseada no livro homônimo de Mariana Reade e Wagner Cinelli, a peça se inspira em histórias reais para retratar uma realidade que atravessa gerações, classes sociais e territórios. Em 2025, o país registrou 1.568 feminicídios — o maior número dos últimos anos — evidenciando a gravidade de um problema estrutural. A montagem também reforça que a violência doméstica se manifesta de diferentes formas — física, psicológica, moral, sexual e patrimonial — muitas vezes ocorrendo de maneira simultânea.
Narrativa sensível e direta
Com idealização de Ana Capella e direção de Paulo Reis, a encenação aposta em uma dramaturgia que evita o sensacionalismo e privilegia o silêncio e o impacto emocional. A história acompanha Luana, personagem que vê sua relação se deteriorar gradualmente, revelando como o abuso raramente começa de forma explícita, mas se instala de maneira progressiva e, muitas vezes, naturalizada.
Ao acompanhar essa trajetória, “O Último Dia” convida o público a reconhecer sinais muitas vezes invisíveis e a refletir sobre a responsabilidade coletiva no enfrentamento à violência contra a mulher. Mais do que uma obra teatral, o espetáculo se posiciona como um instrumento de conscientização, ampliando o debate sobre um tema urgente e reforçando a necessidade de romper ciclos que ainda persistem na sociedade brasileira.