Movimento de 10 dias provocou inflação pontual, perdas bilionárias e impacto duradouro no PIB e na confiança econômica
O Brasil parou! E a economia sentiu de imediato. A greve dos caminhoneiros de maio de 2018, que durou cerca de 10 dias, interrompeu o abastecimento de combustíveis, alimentos e insumos básicos, esvaziou cidades, e evidenciou a forte dependência do país do transporte rodoviário. O impacto foi generalizado, atingindo desde supermercados de bairro até cadeias industriais inteiras.
A paralisação gerou efeitos imediatos na inflação, com forte alta de preços em junho daquele ano. O IPCA mensal saltou de uma projeção de 0,22% para 1,26%, puxado principalmente por combustíveis e alimentos, que sofreram com a falta de reposição. Apesar disso, parte desse aumento foi temporária, e acabou sendo compensada nos meses seguintes, com leve deflação posterior — mas que nunca alcançou os patamares anteriores à greve, diga-se.
Impacto estrutural na economia
Se a inflação foi um choque passageiro, o impacto na atividade econômica foi mais profundo e duradouro. A indústria de transformação caiu cerca de 3,4% no período, e setores como comércio e serviços também foram fortemente afetados pela interrupção logística. No total, estimativas indicam prejuízos diretos de até R$ 15 bilhões, podendo chegar a perdas ainda maiores ao considerar efeitos indiretos. Além disso, houve destruição de produção que não pôde ser recuperada (como alimentos perecíveis) e queda nas exportações, com perdas de mais de US$ 1 bilhão em poucos dias. O impacto também atingiu o mercado de trabalho e os investimentos, já que a incerteza levou empresas a adotar postura mais cautelosa.
A consequência mais visível foi no crescimento econômico: a expectativa de alta do PIB em 2018 caiu de cerca de 2,8% para algo próximo de 1% a 1,8% ao final do ano. A greve, claro, foi um dos principais fatores para essa frustração, ao interromper a recuperação que o país ensaiava após a recessão. Mais do que números, a crise deixou um legado importante: evidenciou a vulnerabilidade estrutural da economia brasileira à logística rodoviária, e abalou a confiança de empresários e investidores. O episódio passou a ser referência sempre que há ameaça de nova paralisação, um lembrete de como poucos dias de bloqueio podem gerar efeitos duradouros em toda a economia nacional.