Nesta semana, a demissão de Filipe Luís do comando técnico do Clube de Regatas do Flamengo dominou debates esportivos, programas de televisão, redes sociais, e rodas de conversa. Para alguns, uma decisão injusta; para outros, inevitável. Para muitos, apenas mais um capítulo do futebol brasileiro, onde o limiar entre herói e vilão costuma ser tão fino quanto a linha do impedimento.
Mas, para quem observa liderança há décadas, dentro e fora dos campos, esse episódio traz reflexões muito mais amplas do que o simples resultado de alguns jogos.
No futebol, como no mundo corporativo, a memória costuma ser curta. As vitórias de ontem rapidamente perdem força diante das derrotas de hoje. Conquistas recentes que pareciam sólidas podem ser eclipsadas por uma sequência ruim. E, de repente, o líder que era celebrado passa a ser questionado. O que antes era visão estratégica vira “erro”.; e o que era liderança vira “falta de comando”. Isso acontece no esporte. E acontece todos os dias nas empresas.
Ao longo da minha carreira internacional liderando equipes em mercados complexos, do Caribe ao Cáucaso, da América Latina à Ásia, aprendi uma lição dura, porém realista: resultado recente pesa mais do que reputação passada. Não porque o passado não importe, mas porque organizações vivem do presente e do futuro. E, infelizmente estão cada vez mais imediatistas, pensando mais no curto do que no longo prazo.
No futebol, o placar é visível. No mundo corporativo, ele aparece nos indicadores, nas vendas, no engajamento das equipes, na confiança dos acionistas ou dos conselhos. Mas a lógica é a mesma: liderança é constantemente reavaliada. E, a pressão dos conselhos, dos acionistas, dos chefes e, porque não, das “torcidas/consumidores” também, é cada vez maior. E, olha que a torcida do Flamengo não é fácil, não.
Isso não significa que a trajetória anterior perde valor. Pelo contrário: o passado constrói credibilidade, experiência e repertório. Porém, ele não funciona mais como um escudo permanente contra os desafios do presente. É como no futebol: o troféu conquistado no ano passado não entra em campo no jogo de hoje.
E aqui surge um ponto fundamental sobre liderança: liderar é viver permanentemente entre a gratidão pelo passado e a responsabilidade pelo próximo resultado.
Grandes líderes entendem que o reconhecimento de ontem não garante estabilidade amanhã. Eles sabem que reputação é construída ao longo de anos, mas pode ser colocada à prova em poucas semanas. E, por isso, cultivam algo mais profundo do que apenas vitórias: constroem cultura, desenvolvem pessoas, e deixam estruturas que sobrevivem a qualquer ciclo.
Porque, no final das contas, liderar nunca foi sobre aplausos permanentes. É sobre navegar momentos de euforia e momentos de pressão sem perder o equilíbrio.
No esporte isso fica evidente. No mundo corporativo, às vezes demora mais para aparecer, mas cada vez aparece mais.
Talvez a maior lição desse episódio não esteja na decisão em si, mas na reflexão que ele provoca: liderança não é um cargo garantido, é uma confiança renovada todos os dias.
E isso vale para técnicos de futebol, CEOs, gestores, e empreendedores.
Por isso, deixo uma provocação para quem lidera equipes, projetos ou organizações: se as vitórias de ontem não garantem o amanhã, o que você está construindo hoje para sustentar o próximo ciclo?
Porque, no futebol e na vida corporativa, o jogo continua. Sempre.
Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus.
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