Antes mesmo que o último envelope da apuração dos desfiles das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro seja aberto, pouco antes das 18h00 desta quarta-feira, e as notas sacramentem a posição da Acadêmicos de Niterói, um veredicto já parece inscrito na passarela do samba: quem foi rebaixado, desta vez, foi o próprio Carnaval.
À sombra dos refletores da Marquês de Sapucaí, a política não apenas cruzou a avenida; tomou-a de assalto, travestida de arte, e investida de propósito eleitoral. O sambódromo converteu-se em palanque, onde estética e poder se misturaram sem pudor, e o espetáculo que deveria exaltar a pluralidade cultural acabou reduzido à repetição de uma obsessão retórica de Lula e seus apoiadores: atacar, ofender, e humilhar Jair Bolsonaro.
O desfile revelou ainda um sintoma preocupante: a transformação do dissenso em caricatura. Quem pensa diferente é rotulado de “conserva”, como se, na simplificação entre progressistas e conservadores, apenas um lado fosse digno de respeito. O Carnaval, que sempre se orgulhou de celebrar a diversidade, não pode se converter em arena de perseguição simbólica. O Brasil é grande (e complexo) demais para caber em alegorias que dividem mais do que dialogam.
O enredo “Do Alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil” transformou a trajetória do Presidente em epopeia e caricaturou o adversário como palhaço, além de retratar os críticos do governo como “humanos enlatados”. Em pleno ano eleitoral, a homenagem ultrapassou o lirismo carnavalesco e assumiu contornos explícitos de embate ideológico; um confronto que pouco acrescenta à festa e muito contribui para tensionar o ambiente político.
Sequestraram dos foliões a alegria, a ironia fina, a crítica mordaz, e a contestação genuína. Nos anos 1980 e 1990, escolas como a Caprichoso de Pilares e carnavalescos como Joãozinho Trinta eternizaram desfiles que confrontavam desigualdades e denunciavam injustiças, fazendo da avenida um território de resistência. Hoje, em vez de questionar o poder, opta-se por reverenciá-lo.
Em 2026, a escola de Niterói preferiu o rapapé ao governante em exercício, em tom que remete a períodos menos democráticos da história nacional. Não é a primeira vez que o Carnaval flerta com a chapa-branca. Em 1970, a Estação Primeira de Mangueira exaltou o “Milagre Brasileiro” do governo Médici. Em 1975, a Beija-Flor de Nilópolis homenageou os dez anos do golpe de 1964, celebrando no samba-enredo expressões como “Brasil grande” e “progresso constante”. Eram tempos em que a festa servia de vitrine ao poder constituído; como, a julgar pelos acontecimentos recentes, volta a servir.
A crítica, registre-se, não se dirige à figura de Lula nem ao direito de uma agremiação escolher livremente seu enredo. Dirige-se ao contexto. Em ano eleitoral, a construção de uma narrativa heroica pode configurar promoção pessoal e campanha antecipada de um Presidente em mandato e candidato à reeleição; argumento que já motivou o anúncio de ações no Tribunal Superior Eleitoral. Havendo dinheiro público envolvido, a vigilância precisa ser redobrada. Cultura não pode ser instrumentalizada como extensão de propaganda.
Há, ainda, uma ironia histórica incontornável. Em 2006, vereadores petistas recorreram à Justiça para tentar barrar alegorias de uma escola paulista que homenageavam Geraldo Alckmin e José Serra, sob a alegação de uso de recursos públicos para promoção pessoal às vésperas da eleição. O princípio invocado à época é o mesmo que agora ressurge nos tribunais. Coerência democrática exige régua única... Para aliados e adversários.
O Carnaval é patrimônio cultural e espaço legítimo de expressão. Mas, quando o enredo se converte em peça de bajulação a quem ocupa o poder, a festa corre o risco de trocar a expressão popular pelo palanque. Defender a liberdade artística não implica ignorar o uso político do espetáculo, sobretudo em ano eleitoral. No fim das contas, independentemente da colocação da Acadêmicos de Niterói na apuração do Grupo Especial do Rio, sob as vaias que ecoaram das arquibancadas, Lula já experimentou sua primeira derrota política do ano.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.