Todo grande líder, todo grande profissional, toda história de sucesso real que já acompanhei, seja no mundo corporativo, no empreendedorismo, na educação ou até mesmo no esporte, tem um ponto em comum: houve, em algum momento lá atrás, alguém que acreditou antes que os resultados estivessem prontos. Que viu o potencial antes que ele se tornasse performance, que apostou no jovem, ainda inexperiente, muitas vezes inseguro, mas com brilho nos olhos e sede de aprender. Um diamante ainda bruto, uma escultura ainda dentro da pedra, uma promessa que precisava apenas de oportunidade e orientação para se cumprir.
Eu vivi isso. Não foram os PowerPoints, os MBAs, ou os cargos no crachá que me moldaram como líder. Foi o olhar confiante de quem, mesmo sem todas as evidências, viu valor onde ainda havia lacunas. Vi isso acontecer comigo, e também vi acontecer com muitos dos grandes líderes que tive a honra de formar e mentorar ao longo dos anos.
Em minha trajetória, que passou por seis países, quarenta mercados, e diferentes culturas, pude perceber que não são os ambientes sofisticados que moldam os melhores líderes; mas, sim, os contextos desafiadores, onde alguém tem coragem de dar a primeira chance. A liderança nasce da lapidação, e lapidar exige paciência, confiança, tempo e, principalmente, a disposição de apostar em alguém antes que os holofotes estejam acesos.
Essa é uma das marcas mais profundas da verdadeira liderança: sua capacidade de enxergar o futuro nas sementes do presente. De acreditar quando ainda é arriscado; de patrocinar talentos quando eles ainda não têm visibilidade; de apoiar não apenas os que já entregam, mas também os que estão dispostos a se desenvolver, se transformar, se superar. Aí, é onde a atitude fala bem mais alto que a competência, que o CV.
Infelizmente, vejo muitos líderes hoje aprisionados em métricas de curto prazo; promovendo apenas quem “já está pronto”, dando oportunidade apenas para o já conhecido, esquecendo que ninguém nasce pronto. O líder que se recusa a lapidar novos talentos abre mão de construir um legado. E talvez essa seja uma das grandes crises silenciosas da liderança atual: a ausência de patrocinadores de futuro.
Sim, patrocinador de futuro. Porque acreditar em alguém é um ato de liderança transformadora; é sair do piloto automático da meritocracia fria e entrar no campo da humanidade estratégica; é entender que talento não floresce sozinho, que promessa sem contexto vira frustração; é entender que até os grandes nomes que hoje estampam revistas de negócios já foram, um dia, só mais um jovem inseguro com muito a provar.
Você se lembra de quem apostou em você? Da primeira pessoa que te deu um “sim” quando o mais seguro seria dizer “ainda não”? Eu me lembro. O nome dele? Flávio de Andrade. Pois é, talvez, agora, seja sua vez de fazer o mesmo por alguém. Assim como eu fiz por vários jovens que apostei em Cuba, Sri Lanka, Caribe, América Central, no Caucasus, e aqui no Brasil também
O futuro da liderança será dos que souberem formar outros líderes. Não apenas gestores eficientes, mas pessoas que inspiram, desenvolvem e deixam rastro. Porque, no fim das contas, o verdadeiro legado de um líder não é o que ele faz por si, mas, sim, o que ele faz pelos outros.
Por isso, termino com uma provocação: em quem você está apostando hoje? Qual jovem talento você está ajudando a esculpir? Que diamante está sendo lapidado sob a sua liderança?
Porque toda escultura precisa de mãos que removam o excesso. Todo diamante precisa de luz e pressão. E todo líder precisa, em algum momento, de alguém que diga: “eu acredito em você, mesmo que você ainda não tenha provado nada.”
Seja essa pessoa.
Felício Ferraz trabalhou como executivo de empresas multinacionais como Shell e Souza Cruz; é conselheiro, professor, empreendedor em série; e ex-CEO da BAT - British American Tobacco - no Caribe, America Central, Sri Lanka, e Caucasus.