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Claudia Leitte, Nei Lopes e a régua que muda conforme quem fala. O debate sobre cultura de matriz africana revela quando a indignação deixa de ser critério e vira escolha

03/02/2026 13:03 Por Redação NTD

Às vezes a realidade se impõe de forma desconfortável. Algo parece fora do lugar, mas não fica claro, de imediato, onde está o problema. Foi essa sensação que surgiu a partir de episódios recentes envolvendo manifestações culturais e religiosas no Brasil.

Como é de conhecimento público, a cantora Claudia Leitte passou a ser duramente criticada após trocar, durante a execução de uma música, o nome da divindade de matriz africana Iemanjá por Yeshua. Segundo a própria cantora, a escolha não teve a intenção de ofender ninguém, mas de respeitar suas convicções religiosas como evangélica.

Mesmo assim, o episódio ganhou proporções maiores. A cantora passou a ser alvo de forte reprovação social e acabou sendo acionada judicialmente pelo Ministério Público da Bahia, com pedido de indenização milionária por dano moral coletivo. A discussão deixou de ser musical e passou a ocupar o campo jurídico e simbólico.

Pouco tempo depois, outro fato chamou atenção. O historiador negro Nei Lopes, em entrevista, afirmou que os temas ligados ao candomblé estariam se tornando repetitivos nos desfiles das escolas de samba. A fala gerou debate, mas não provocou reação institucional nem qualquer iniciativa judicial.

É nesse ponto que a incoerência começa a aparecer. Se a crítica parte de uma artista branca, o discurso é tratado como ofensa grave à cultura de matriz africana. Quando parte de um intelectual negro, o comentário é recebido como análise cultural legítima. Surge então uma pergunta incômoda, mas necessária. A crítica é permitida ou proibida conforme a cor da pele de quem a faz?

A proteção à cultura de matriz africana não pode variar de acordo com a identidade de quem fala. Ou há ofensa em ambos os casos, ou não há em nenhum. O critério precisa ser o conteúdo da manifestação e a intenção que a acompanha, não a cor da pele ou o lugar social de quem se expressa.

Quando o debate abandona a igualdade de critérios, abre-se espaço para decisões seletivas e para uma indignação que escolhe alvo. Isso não fortalece a cultura que se pretende proteger. Ao contrário, fragiliza o próprio discurso da defesa cultural.

O mais razoável é reconhecer que, nos dois episódios, não houve ataque deliberado. A cantora buscou conciliar sua fé com a performance artística. O historiador expressou uma opinião crítica sobre caminhos estéticos do carnaval. Nenhum dos dois teve a intenção de desqualificar ou agredir a cultura de matriz africana.

Defender uma cultura não significa blindá-la contra qualquer reflexão nem transformar divergência em ofensa automática. Justiça cultural exige coerência. E coerência só existe quando a régua é a mesma para todos.

Edgar Portela é Consultor jurídico, professor de Direito Constitucional, e jornalista, com atuação em todo Brasil, e, especialmente, em Brasília, nos bastidores da política.