À medida que o calendário eleitoral de 2026 se aproxima, o bolsonarismo revela uma escolha estratégica que diz menos sobre a disputa nas urnas e mais sobre a preservação de sua própria mitologia política. O movimento, estruturado em torno da figura de Jair Bolsonaro e de seu núcleo familiar, parece disposto a sacrificar competitividade eleitoral em nome da manutenção de um protagonismo simbólico. Trata-se de uma decisão que privilegia a identidade e a narrativa interna do grupo, mesmo ao custo de isolamento político.
A recusa em transferir a liderança do campo conservador a nomes mais palatáveis ao eleitorado médio, como o governador Tarcísio de Freitas, evidencia essa lógica. Ao insistir em uma candidatura vinculada diretamente ao clã, como a do senador Flávio Bolsonaro, o bolsonarismo reafirma que seu projeto não se resume a vencer eleições, mas a preservar o controle sobre a representação da direita brasileira. Perder a hegemonia discursiva dentro da direita, nesse contexto, seria mais grave do que perder uma disputa presidencial.
Esse apego ao simbolismo se expressa também em gestos de forte carga performática. A caminhada do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que partiu de Brasília em defesa da liberdade de Jair Bolsonaro, insere-se nesse repertório. O ato, mais retórico do que institucionalmente eficaz, reforça a narrativa de perseguição e martírio que sustenta a coesão da base bolsonarista. Não se trata de convencer novos públicos, mas de reafirmar crenças já consolidadas, transformando a política em rito e demonstração de fé.
O problema dessa estratégia é seu evidente estreitamento de horizonte. Pesquisas sucessivas indicam que o bolsonarismo enfrenta um teto eleitoral rígido, alimentado por elevados índices de rejeição fora de seu núcleo duro. Ainda assim, o movimento parece confortável em abdicar da expansão em troca da “pureza ideológica”. Ao pregar apenas para convertidos, reforça-se a identidade do grupo, mas aprofunda-se a distância em relação ao eleitorado moderado, decisivo em eleições majoritárias.
Há, por trás dessa escolha, um cálculo de sobrevivência política que vai além do curto prazo. Manter o protagonismo garante influência parlamentar, capacidade de mobilização digital, e presença constante no debate público. No entanto, ao se fechar em torno de símbolos familiares e narrativas autorreferentes, o bolsonarismo corre o risco de se fossilizar, tornando-se uma força política, sim, ruidosa, porém incapaz de se reinventar ou de construir maiorias duradouras.
Enquanto isso, Lula colhe os frutos da fragmentação adversária. A ausência de uma oposição unificada, e pragmaticamente orientada, reforça a vantagem do governo, e perpetua a polarização. Ao optar pela preservação do próprio mito em detrimento da eficácia eleitoral, o bolsonarismo caminha sobre uma linha tênue: pode manter acesa sua chama militante, mas corre o risco de transformar protagonismo em isolamento e fidelidade ideológica em irrelevância política.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.