Especialistas defendem que o debate público de dezembro e do novo ano avance para temas estruturais como trabalho, saúde, educação e segurança
O fim do ano chega com números, balanços e manchetes duras, e entre elas a violência contra as mulheres ocupa, com razão, espaço central. Mas, como alertam pesquisadoras e organizações da sociedade civil, dezembro também expõe um paradoxo: enquanto os casos de agressão ganham visibilidade, outras dimensões fundamentais da vida feminina seguem à margem do debate, mesmo moldando, silenciosamente, o cotidiano e as perspectivas de milhões de brasileiras.
A violência de gênero permanece como pauta prioritária, sem esgotar, contudo, os desafios enfrentados pelas mulheres no país. Dados de pesquisadores e de órgãos públicos apontam questões estruturais persistentes, como desigualdade salarial, precarização no mercado de trabalho, lacunas no acesso à saúde e déficits na proteção social. Para especialistas, o debate público precisa ir além do registro episódico de casos e avançar para ações sistêmicas de prevenção e promoção da autonomia feminina, integrando a agenda do encerramento do ano com as prioridades do próximo ciclo.
Saúde, trabalho e proteção em foco
No campo econômico, o empreendedorismo feminino cresce, sobretudo em micro e pequenos negócios, mas convive com maior informalidade e dificuldades de acesso a crédito e redes de apoio. Embora as mulheres sejam maioria entre os concluintes do ensino superior e ampliem presença no mercado formal, ainda recebem, em média, cerca de 20% menos que os homens em funções equivalentes. “Investir em capacitação e em instrumentos financeiros adaptados à realidade das empreendedoras é essencial para transformar protagonismo em sustentabilidade econômica”, afirma uma pesquisadora em políticas de gênero ouvida pela reportagem. Karla Fassini, da Rede Imulheres, reforça que políticas públicas precisam articular assistência, formação e acesso a mercados para reduzir a insegurança econômica feminina.
Na saúde, os impactos desproporcionais seguem evidentes, tanto na saúde reprodutiva quanto na saúde mental, com aumento de queixas de ansiedade e depressão desde a pandemia. A mortalidade materna e as dificuldades de acesso ao pré-natal em áreas remotas permanecem como alertas. Já na educação, apesar da maioria feminina nas universidades, a sobrecarga de cuidados domésticos e o trabalho não remunerado ainda dificultam a consolidação de trajetórias profissionais. Em perspectiva, organizações e estudiosos defendem uma agenda integrada, que inclua ampliação de serviços psicossociais, qualificação profissional com acesso a crédito, campanhas educativas comunitárias e fortalecimento da rede de proteção. “A transversalidade, integrar saúde, educação, assistência social, segurança e diversidade, é o caminho para respostas efetivas”, resume Katja Bastos, especialista em políticas públicas de gênero. Para a imprensa e formuladores de políticas, o desafio do novo ano é ampliar o foco, ouvir as vozes das mulheres e transformar visibilidade em mudanças concretas e duradouras.