Álbum “Jazz”, levado da Biblioteca Mário de Andrade nos anos 2000 e encontrado na Argentina, ganha novo capítulo após novo furto em São Paulo
Entrar na Biblioteca Mário de Andrade, no centro de São Paulo, e imaginar que obras de Henri Matisse desapareceram — mais de uma vez — parece enredo de romance policial, mas é a realidade que se repete quase duas décadas depois. As oito gravuras furtadas na manhã do último domingo, 7, todas integrantes do álbum “Jazz”, de 1947, carregam um histórico tão acidentado quanto precioso, marcado por subtrações silenciosas, falsificações habilidosas e investigações internacionais.
Há cerca de 20 anos, entre 2004 e 2006, o álbum foi levado da própria Mário de Andrade por um funcionário, sem que ninguém percebesse, em meio à reforma do prédio. Para encobrir o crime, o ladrão chegou a substituir as pranchas originais por versões falsas — que circularam sem suspeitas até 2011, quando a Polícia Federal teve acesso ao material verdadeiro em Puerto Iguazú, na Argentina. Na época, a Rede Globo noticiou que o delegado Fábio Scliar foi enviado ao país vizinho para recuperar um lote de livros raros dos séculos 17 e 18 e as gravuras de Matisse, localizadas na fronteira após anos desaparecidas.
Uma fraude revelada
A investigação da PF expôs a dimensão do esquema, que envolvia não apenas o furto, mas a tentativa de ocultar o sumiço das obras com substituições quase imperceptíveis. A recuperação do “Jazz” abriu uma batalha diplomática pela restituição do material, que ficou quatro anos sob guarda do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
Em agosto de 2015, após comprovar que possuía segurança adequada, a Biblioteca Mário de Andrade voltou a receber o álbum. Agora, com um novo episódio de furto reacendendo o alerta, a história das gravuras de Matisse mais uma vez desafia autoridades — e reforça a necessidade de proteção constante do patrimônio cultural brasileiro.