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Opinião

Consciência sem consequência: a distância entre discurso e realidade racial no Brasil

20/11/2025 19:55 Por Redação NTD

O feriado nacional do Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro em referência à morte de Zumbi dos Palmares em 1695, carrega um simbolismo poderoso. É o momento em que o país, ao menos em tese, encara sua história, e confronta a desigualdade racial que atravessa séculos. Mas, a cada ano, cresce a sensação de que a data se tornou mais um ritual automático do calendário, cheio de discursos eloquentes e avanços teóricos, e perigosamente distante de qualquer transformação palpável na vida da população negra.

De fato, houve conquistas importantes: escolas obrigadas a abordar a história afro-brasileira, debates ampliados. Mas os indicadores sociais contam outro enredo. As maiores vítimas de violência continuam sendo jovens negros; a renda média permanece estagnada; a desigualdade educacional insiste em se reproduzir. A pergunta incômoda, que poucos se dispõem a fazer, é: por que tanto barulho, tantos coletivos, tantos discursos, e tão poucos resultados concretos? Há quem observe que o ativismo antirracista, em parte, descambou para uma zona confortável de linguagem e performatividade, onde a luta parece mais eficiente nas redes sociais do que nos territórios onde a desigualdade realmente se manifesta. 

Além disso, um fenômeno curioso — e pouco discutido — se consolidou nos últimos anos: o da apropriação da pauta racial por parcelas da população branca, ansiosas para demonstrar virtude, autoimagem progressista, e alinhamento ao “lado certo da história”. São pessoas que publicam frases de efeito, compartilham cards emocionados, e chamam isso de ação política. O problema (evidentemente) não é o apoio, mas a superficialidade dele. Muitos dos autodeclarados aliados jamais saem da frente do computador para participar de um conselho escolar, pressionar por orçamento público, apoiar projetos comunitários, ou sequer levantar de onde estão para sentar em outro lugar e refletir sobre desigualdades dentro de seus próprios ambientes de trabalho. Encena-se empatia, mas evita-se qualquer custo real.

Nesse cenário, torna-se legítimo questionar não apenas o poder público, mas o próprio Movimento Negro e os coletivos de igualdade racial. Parte deles parece ter se habituado a um ciclo previsível: campanhas simbólicas, debates teóricos, eventos anuais, e uma presença forte nas redes. Enquanto isso, a base social da luta segue sem ver mudanças práticas. A representatividade ampliada nas telas e nos palanques é um passo, mas não substitui a batalha por políticas públicas permanentes, fiscalização efetiva, e mobilização popular de verdade. 

O Dia da Consciência Negra não deveria ser apenas uma vitrine para intenções nobres — de brancos e de negros. A memória de Zumbi não combina com acomodação, tampouco com discursos que soam fortes, mas agem fracos. Em vez de reafirmar virtudes de menestréis, a data deveria nos provocar desconforto: o que, exatamente, mudamos desde o último 20 de novembro? E quem está disposto a transformar consciência em consequência? Sem enfrentar essas perguntas, o feriado corre o risco de se tornar apenas mais um espelho onde o Brasil admira suas boas intenções... Enquanto a realidade insiste em permanecer a mesma.

Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.