Nos dias que sucederam a Operação Contenção no Rio de Janeiro, a Rede Globo assumiu, em suas principais vitrines jornalísticas, um tom de indignação grave, quase litúrgica. Era o coro habitual: denúncias de “abusos”, “execuções sumárias”, “estratégias desastradas”. No estúdio, os chamados “especialistas em segurança pública” se revezavam em diagnósticos severos, quase todos convergindo para o mesmo veredito: o Estado, mais uma vez, teria reagido com brutalidade, sem inteligência, e sem método. A retórica da moderação, paradoxalmente, já se tornara previsível.
Porém, como costuma acontecer quando o vento muda de direção, o discurso logo se adaptou. À medida que as pesquisas de opinião revelavam o maciço apoio da população às forças policiais e as redes sociais reverberavam mensagens de gratidão e alívio, a emissora ensaiou uma guinada súbita. O que antes era motivo de repúdio transformou-se em gesto de coragem. As mesmas vozes que ecoavam preocupação humanitária passaram a congratular os policiais “pelo trabalho árduo e essencial para devolver a paz às comunidades”. Um novo léxico se impôs; não mais o da crítica moral, mas o da celebração do dever cumprido.
A transfiguração não surpreende. O jornalismo televisivo, sobretudo o praticado em grandes redes, há muito se acostumou a medir o tom de sua consciência pela régua da audiência. Quando a temperatura moral do público oscila, a linha editorial se realinha. A Rede Globo, que se arvora guardiã de uma ética jornalística superior, não hesitou em ajustar seu registro: da denúncia moralista à exaltação pragmática, do repúdio à reverência. Tal movimento revela menos uma revisão sincera de valores e mais um cálculo de sobrevivência narrativa.
O episódio é emblemático de um fenômeno mais amplo: a erosão da independência crítica diante da pressão simultânea das redes sociais e do mercado publicitário. A emissora não apenas espelhou o sentimento coletivo; ela se deixou moldar por ele, abdicando da função de interrogar o poder para se limitar a reproduzir o aplauso. E assim, em poucos dias, o noticiário se converteu em palco de autoindulgência nacional, onde a complexidade foi substituída pela catarse; e o debate, pelo conforto do consenso.
No fundo, a metamorfose da Globo não diz respeito apenas à segurança pública, mas à própria crise de identidade do jornalismo contemporâneo; entre o dever de interpretar e o instinto de agradar, entre a coragem de destoar e o medo de perder relevância. No caso da cobertura da megaoperação, a emissora escolheu o aplauso. Mas, ao fazê-lo, expôs uma verdade incômoda: o episódio revela mais sobre o jornalismo do que sobre a polícia.
A Operação Contenção dividiu opiniões, mas a reviravolta no noticiário mostrou que, na guerra pela audiência, a coerência é frequentemente a primeira vítima. E talvez o outro crime cometido nesse enredo não esteja nas favelas, mas nas redações.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.