Gilberto Gil sempre foi mais do que um músico. É símbolo de uma geração que acreditou na força da arte para questionar regimes, desafiar censuras, e inspirar mudanças. Mas há uma linha tênue entre o artista engajado e o artista engajado pelo poder. E é justamente essa linha que a turnê “Tempo Rei”, a última grande excursão de Gil, parece atravessar com naturalidade desconcertante — especialmente quando se descobre que parte do show foi bancada com dinheiro público, via patrocínio milionário dos Correios.
O público, emocionado, vibra quando Cálice ecoa nos alto-falantes. O vídeo com Chico Buarque empolga, o coro “Sem Anistia” toma conta das plateias, e o espetáculo ganha ares de catarse política. Tudo seria compreensível (legítimo até) se estivéssemos falando de um evento independente. Mas o fato é que o protesto é patrocinado por uma empresa estatal que amarga bilhões de reais em prejuízos. Nesse contexto, o aplauso se mistura a uma pergunta incômoda: estamos financiando cultura ou militância?
O caso não se esgota no palco. À frente dos Correios está Fabiano Silva dos Santos, advogado, (ex?) militante do PT, e figura de destaque no grupo Prerrogativas, um coletivo de juristas de esquerda que ganhou projeção por defender Lula na Lava Jato, e que hoje ocupa dezenas de cargos estratégicos no governo. Santos é conhecido, nos bastidores, como o “churrasqueiro do Lula”. Ele rejeita o apelido, mas não o entorno político que o cerca.
Sob sua gestão, a estatal — que fechou 2024 com R$ 2,6 bilhões de prejuízo — gastou R$ 38,4 milhões em patrocínios culturais, e reajustou seu próprio salário nos últimos dois anos. A austeridade, tão exigida dos trabalhadores, parece não alcançar o topo da hierarquia. Para piorar, a empresa ainda perdeu uma ação por assédio moral movida por um ex-superintendente, e convive com nomeações polêmicas ligadas a investigações da Operação Greenfield.
O Brasil precisa de cultura. Precisa de música, Teatro, Cinema, arte que faça pensar. Mas quando a cultura se torna um braço de governo, ela deixa de servir ao público e passa a servir a um projeto de poder. Não há problema em artistas se posicionarem. Na verdade, é saudável, até necessário. O problema é quando o Estado patrocina, de forma seletiva, apenas as vozes que reforçam sua narrativa ideológica.
O “Sem Anistia” que ecoa nos shows de Gil é o mesmo lema defendido nos jantares e manifestos do Prerrogativas, o grupo que, ironicamente, homenageou Janja Lula da Silva enquanto clamava por rigor judicial e justiça sem perdão. O círculo se fecha: o discurso político sobe ao palco, o patrocínio vem da estatal comandada por aliados, e o contribuinte paga a conta.
No fim, o espetáculo é bonito, o som é impecável, e a mensagem, poderosa. Mas é impossível ignorar o pano de fundo. Quando sobe ao palco, Gil não cheira a talco, mas, sim, a cozinha do Planalto. O público canta, o governo se encanta, e os cofres públicos, mais uma vez, arcam com o bis.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.