Família pede indenização de R$ 370 mil após declarações ofensivas sobre os orixás e religiões de matriz africana
A dor da perda virou combustível para a luta contra o preconceito. O cantor e compositor Gilberto Gil e sua família ingressaram com uma ação de indenização por dano moral na Justiça do Rio de Janeiro contra o padre Danilo César de Souza Bezerra e a Mitra Diocesana de Campina Grande (PB). O processo pede indenização de R$ 370 mil, após o sacerdote proferir declarações consideradas intolerantes e discriminatórias em relação às religiões de matriz africana. O episódio ocorreu durante uma transmissão religiosa no dia 27 de julho deste ano, uma semana após o falecimento da cantora Preta Gil.
Durante a transmissão, o padre comentou o luto da família Gil de forma considerada desrespeitosa, questionando a fé da artista e de seu pai, um dos principais símbolos da música e da cultura afro-brasileira. “Cadê o poder desses orixás, que não ressuscitou Preta Gil?”, teria dito o religioso, em tom de deboche, colocando em dúvida a eficácia das divindades do candomblé. Em seguida, o sacerdote teria classificado outras religiões como “forças ocultas”, além de afirmar que desejava que “o diabo levasse” seus praticantes, insinuando que acordariam no “calor do inferno”. Para a família, as declarações extrapolam o limite da liberdade religiosa e configuram um ataque frontal à diversidade de fé e ao respeito constitucional às crenças.
Silêncio e investigação
Segundo os advogados de Gilberto Gil, o padre e a Diocese foram notificados extrajudicialmente em agosto de 2025, com exigência de retratação pública e de abertura de processo interno na Igreja Católica para apuração da conduta do sacerdote. No entanto, até o momento, nenhuma resposta foi dada. Diante do silêncio, a família decidiu recorrer ao Judiciário para buscar uma reparação moral e simbólica, que sirva também como alerta contra o avanço de discursos de ódio disfarçados de pregação religiosa. A ação se soma a um inquérito policial já em andamento, que investiga o padre por racismo religioso, crime previsto em lei e sujeito a pena de reclusão.
Para os representantes legais da família, a iniciativa de Gilberto Gil tem caráter exemplar e educativo, com o objetivo de reafirmar que a liberdade de crença não deve ser confundida com o direito de ofender. “A fala do padre atinge não apenas Gil e sua família, mas milhões de brasileiros que professam religiões de matriz africana”, afirmam os advogados. O artista, que há décadas defende o diálogo entre culturas e credos, vê no caso mais uma oportunidade de transformar dor em resistência; um gesto coerente com a trajetória de quem sempre usou a arte e a palavra para lutar contra o preconceito.