Em setembro, o mundo celebrou os 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, um dos conflitos mais devastadores da história humana. A rendição incondicional do Japão, em 1945, pôs fim a uma guerra que custou a vida de mais de 70 milhões de pessoas e deixou cicatrizes profundas na geopolítica, na moral coletiva e na organização da sociedade global. No entanto, ao mesmo tempo em que essa data convida à memória e à homenagem às vítimas, ela impõe também uma reflexão sobre os desafios que o século XXI nos apresenta... Muitos dos quais têm raízes ou paralelos no passado.
A Segunda Guerra não foi apenas uma disputa entre nações, mas um colapso moral que expôs o potencial destrutivo da intolerância, do autoritarismo, e do ódio racial. O Holocausto, os bombardeios atômicos em Hiroshima e Nagasaki, os campos de concentração, e a destruição em massa são lembranças vívidas do que a humanidade é capaz de fazer quando perde os freios éticos e democráticos. Desses horrores nasceu um novo pacto internacional: a criação da ONU, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, o fortalecimento do multilateralismo, e o consenso sobre a importância de preservar a paz.
No entanto, 80 anos depois, o mundo enfrenta novas batalhas. Algumas são silenciosas, outras explícitas. As democracias, em vários pontos do globo, veem-se ameaçadas por movimentos populistas, autoritários, e antidemocráticos. A desinformação digital, as guerras culturais, e a polarização política corroem o tecido social. Grupos extremistas e discursos de ódio, antes marginalizados, voltam a ganhar espaço, inclusive com o uso das redes sociais como armas ideológicas.
No campo geopolítico, o cenário também se complica. Conflitos armados persistem, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, e tensões crescentes emergem no Indo-Pacífico, especialmente entre China, Taiwan e os Estados Unidos. A proliferação de armas nucleares, a corrida armamentista cibernética, e o uso da inteligência artificial em contextos militares levantam novas preocupações éticas e estratégicas.
Além disso, o século XXI enfrenta ameaças que transcendem fronteiras nacionais: as mudanças climáticas, as pandemias globais (como foi a COVID-19), a desigualdade econômica crescente, e as crises migratórias. Diferente da guerra tradicional, essas batalhas não se vencem com tanques ou tratados de rendição, mas com cooperação internacional, ciência, políticas públicas eficazes, e solidariedade.
Neste aniversário dos 80 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, não basta lembrar o passado. É preciso também reconhecer que a paz não é um estado permanente, mas uma construção contínua. A liberdade, a democracia, e os direitos humanos exigem vigilância constante. A história ensinou, com sangue e sofrimento, que a indiferença e o silêncio diante do autoritarismo, e da violência, abrem caminho para tragédias.
Celebrar o fim da guerra, portanto, é também reafirmar o compromisso com a humanidade; com o diálogo, com a justiça, e com a dignidade de todos. O maior tributo às vítimas da guerra não é apenas lembrar sua dor, mas impedir que ela se repita em novas formas, com novos rostos, em tempos diferentes. A memória é um dever. A paz, um desafio permanente. E o século XXI, ainda em seu primeiro quarto, decidirá se aprenderemos ou não com as lições de 1945.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.