Entre a explosão de cores nas ruas e o ar que parece mais leve, setembro chega como um fenômeno que não é só meteorológico, é social e íntimo. Nas esquinas, nas varandas e nas vitrines, já se percebe uma aceleração, hábitos que se renovam, corpos que se mostram de outro modo e eventos que reaparecem. Esse movimento externo convoca um movimento interno, o mundo se abre e, com ele, respostas afetivas emergem em ritmo próprio.
Historica e culturalmente, a primavera foi celebrada como retorno, fertilidade e começo. Festas agrícolas, ritos de passagem, e calendários religiosos a marcaram como tempo propício a semear. No plano coletivo, sua chegada frequentemente coincide com reações em cadeia, com um aumento de atividades ao ar livre, renovações estéticas e até aceleração do consumo. Politicamente, movimentos que exigem visibilidade também tomam as ruas na estação mais “aberta” do ano, a rua, a praça, o corpo se tornam territórios de expressão.
Estação ativa que chamamos de libido em sentido amplo, energia vital que se manifesta como desejo, curiosidade, criatividade e como inquietação. A chegada da luz e do calor pode despertar projetos adormecidos, mas traz junto vozes críticas e medos que freiam a ação. Assim, a primavera se revela ambivalente que oferece impulso transformador e, ao mesmo tempo, expõe resistências, lutos não finalizados e expectativas sociais, que pressionam por uma alegria normativa.
Traduzir a energia primaveril em transformação concreta passa por pequenos gestos que respeitem os ritmos interiores. Plantar uma flor, reorganizar um canto da casa ou começar um diário de imagens, são estratégias que canalizam o ímpeto sem transformá-lo em exigência. Ouvir sonhos, pintar, caminhar ao ar livre e dedicar tempo à palavra com alguém de confiança, são modos de colocar em cena desejos sem pânico de resultado imediato.
A primavera também pede ternura com as perdas, climáticas, pessoais ou simbólicas, que se entremeiam à promessa de renascimento. Transformar não significa apagar, mas acolher como parte do solo fértil, onde algo novo pode nascer. Segurar limites do corpo e buscar suporte profissional, quando a excitação vira angústia intensa, são práticas de cuidado que tornam a estação um tempo de crescimento sustentável. No final, renovar-se é um trabalho delicado que exige coragem para começar, paciência para cultivar, gentileza, e aceitar que alguns brotos só se revelarão mais adiante.
Graça Duarte é jornalista, escritora, psicanalista e parapsicóloga. Atua nas áreas de assessoria de comunicação, gestão de tráfego, projetos, eventos, cursos e palestras; e semanalmente escreve sobre bem-estar e saúde mental no Notícia Todo Dia.