Cantora deixa legado, restrições e mistério sobre patrimônio sem inventário. Justiça deve decidir sobre destino da herança
A última nota de Ângela Ro Ro não foi cantada, mas escrita em recomendações firmes sobre como queria ser lembrada. Pouco antes de morrer, na manhã da última segunda-feira, 08, aos 75 anos, a cantora deixou instruções a respeito do uso de sua imagem e voz. Internada desde junho no Hospital Silvestre, no Cosme Velho, enfrentava uma grave infecção pulmonar, e havia passado por traqueostomia. Nos últimos meses, chegou a depender de doações de fãs e amigos para custear o tratamento.
Segundo seu advogado, Carlos Eduardo Campista, Ângela redigiu um documento em que proibia o uso de sua imagem e voz por inteligência artificial. A única exceção seria para parcerias musicais com nomes como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Chico Buarque, e Gilberto Gil. O texto não chegou a ser assinado, mas expressa o desejo da artista de controlar sua presença no futuro digital.
Herança em disputa
No patrimônio, a cantora deixou um apartamento em Copacabana, e um terreno no interior do Rio, mas sem inventário oficial. Filha única, sem filhos, e com os pais já falecidos, Ângela não tinha herdeiros diretos — o que coloca os bens em situação de vacância. Seu advogado, no entanto, anunciou que pedirá à Justiça o reconhecimento de união estável com a companheira da artista, que sempre viveu discretamente longe dos holofotes. Caso o pedido seja aceito, ela poderá ser reconhecida como herdeira.
Enquanto isso, permanece sem destino definido o patrimônio de uma das vozes mais marcantes da MPB. Financeiramente vulnerável, Ângela recebia apenas cerca de R$ 800 por mês em direitos autorais, apesar de ter 145 composições registradas e 271 gravações no Ecad. Um retrato de como, muitas vezes, a grandeza artística não encontra paralelo na segurança material.