O Botafogo vive um dilema que transcende o campo e ameaça se tornar um marco negativo na história do futebol brasileiro. O clube, que renasceu das cinzas com títulos, pode agora inaugurar a primeira falência de uma SAF de grande porte no país, expondo os riscos de um modelo vendido como solução mágica.
O futebol brasileiro abraçou a ideia das Sociedades Anônimas do Futebol com a esperança de que investidores trariam profissionalismo e estabilidade. No entanto, o caso Botafogo mostra que sem governança, transparência, e disciplina financeira, a SAF pode se tornar apenas um atalho para a insolvência. A dívida de R$ 2,3 bilhões, os R$ 970 milhões em contratações, e o rombo imediato de R$ 770 milhões não são abstrações: são números que colocam em xeque a sobrevivência de um clube centenário.
John Textor chegou ao Botafogo como um mecenas moderno, disposto a devolver grandeza esportiva ao clube. Conseguiu títulos, é verdade, mas ao custo de uma estratégia de risco. A conta não fecha. As contratações de peso transformaram-se em dívidas de curto prazo, enquanto o esperado aporte da Eagle Football Holdings e do Lyon, de quase R$ 1 bilhão, se converteu em litígio judicial. O resultado é um Botafogo vitorioso em campo, mas frágil e dependente de receitas que não se materializam fora dele.
A situação expõe a fragilidade estrutural das SAFs brasileiras. O relatório da Meden Consultoria, que fala em “risco elevadíssimo de colapso”, e usa termos como “asfixia” e “caos”, não deixa espaço para interpretações otimistas. Mais do que um documento técnico, ele é uma advertência sobre como a falta de controles e de planejamento pode transformar um projeto promissor em uma bomba-relógio.
O conflito entre Textor e a Eagle é apenas a face mais visível dessa crise. Ao acusar o empresário de conduta ilícita, e pedir R$ 305 milhões em indenização, a Eagle trava a injeção de capital que poderia aliviar a pressão. A Justiça congelou suas ações, mas manteve Textor no comando — um impasse que prolonga a instabilidade e mina a confiança de novos investidores. A associação civil, por sua vez, já conversa com potenciais interessados, mas qualquer entrada de capital exigirá mais do que vontade: será preciso reconstruir credibilidade.
Se o Botafogo sucumbir, o impacto será devastador para além de General Severiano. O clube pode se tornar o símbolo de que a SAF não é, por si só, solução para os males do futebol. O caso mostrará que títulos não bastam, que paixão não paga dívidas e que a modernização exige mais do que marketing: exige responsabilidade. O Alvinegro, que voltou a sonhar dentro de campo, corre o risco de entrar para a história por um motivo que nenhum torcedor gostaria de carregar: ser a primeira SAF de um grande clube brasileiro a falir.
Leo Pinheiro é diretor de Cinema e Jornalista, com passagem por revistas como Veja, Isto É, Exame e Viver Brasil, onde atuou como correspondente internacional, em Nova Iorque.