Ministro reverte decisão do TRE-PR na véspera da eleição, determina anulação dos votos do ex-procurador e altera corrida por duas vagas no Senado do Paraná
A campanha chegou à porta da urna, mas Deltan Dallagnol foi barrado no último degrau por um ministro que passou duas vezes pela escolha do Presidente Lula para ocupar uma cadeira efetiva no Tribunal Superior Eleitoral (TSE); e a retirada de um dos candidatos mais bem posicionados das urnas abre espaço eleitoral para adversárias como Gleisi Hoffmann e Dr. Rosinha, ambas do PT. Floriano de Azevedo Marques Neto, responsável pela decisão que neste sábado, 3, indeferiu a candidatura do ex-procurador da Lava Jato ao Senado pelo Paraná, foi nomeado por Lula em maio de 2023 para seu primeiro biênio como ministro efetivo da Corte, na vaga destinada à classe dos juristas. Depois de encerrar aquele período, Floriano integrou nova lista tríplice do Supremo Tribunal Federal, e foi novamente nomeado pelo Presidente para mais dois anos, tomando posse no segundo biênio em agosto de 2025. Na véspera da votação de amanhã, Floriano reverteu o entendimento do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), que havia autorizado Deltan Dallagnol a concorrer pelo Novo, determinou que seu registro passasse para “indeferido” e ordenou que os votos eventualmente recebidos neste domingo sejam considerados nulos. A decisão monocrática ainda poderá ser analisada pelo plenário do TSE.
A mudança atinge diretamente uma corrida apertada por duas cadeiras no Senado. A pesquisa Quaest divulgada neste sábado, antes da decisão, colocava Filipe Barros (PL) com 25% dos votos válidos, seguido por Alexandre Curi (Republicanos) e Deltan, Dallagnol ambos com 21%, enquanto Gleisi Hoffmann aparecia logo atrás, com 15%. A saída de um concorrente que ocupava numericamente a segunda colocação, empatado com Curi, muda o cenário da disputa e pode favorecer eleitoralmente quem vinha imediatamente atrás, embora não seja possível afirmar antecipadamente para onde irão os votos dos eleitores que pretendiam escolher Dallagnol. Gleisi, ex-ministra da Secretaria de Relações Institucionais do governo Lula e ex-presidente nacional do PT, passa a disputar a eleição sem um adversário que concentrava parcela expressiva das intenções de voto. Dr. Rosinha, também candidata do PT, aparece mais distante nas pesquisas, com 7% das intenções de voto, mas igualmente pode ser beneficiada pela redução do número de concorrentes efetivamente aptos a receber votos válidos. As duas petistas, portanto, estão entre os candidatos que podem colher efeitos eleitorais da decisão, mas somente a votação poderá mostrar como o eleitorado de Dallagnol se redistribuirá ou se parte dele insistirá em votar no ex-procurador mesmo sabendo que esses votos deverão ser anulados.
Deltan sai, disputa ganha nova matemática
A presença de Gleisi e Dr. Rosinha no episódio não começa, porém, com a decisão deste sábado. Os dois candidatos petistas já haviam recorrido à Justiça Eleitoral em ações envolvendo a campanha de Dallagnol, obtendo decisões que proibiram a veiculação de peças de rádio e televisão que apresentavam o ex-procurador como candidato ou pediam votos para ele depois que seus atos de campanha haviam sido suspensos pelo TSE. A batalha jurídica mais ampla sobre seu registro remonta à decisão tomada pela própria Corte em 2023, quando o tribunal cassou por unanimidade o registro de Deltan Dallagnol como deputado federal nas eleições de 2022. Na ocasião, o TSE concluiu que sua exoneração do Ministério Público Federal ocorreu enquanto havia procedimentos administrativos em andamento e configurou fraude à lei diante da possibilidade de incidência da Lei da Ficha Limpa. O TRE-PR, entretanto, autorizou sua candidatura ao Senado em 2026, entendimento contestado por recursos que chegaram ao tribunal superior. A Procuradoria-Geral Eleitoral havia defendido a manutenção do registro, argumentando que as causas de inelegibilidade deveriam ser examinadas autonomamente em cada eleição, mas Floriano adotou posição diferente e considerou que o quadro jurídico estabelecido anteriormente permanecia.
A consequência eleitoral chega a poucas horas da abertura das urnas e mexe justamente com uma disputa em que cada ponto pode ser decisivo. Deltan Dallagnol aparecia com 21% dos votos válidos na última Quaest, numericamente à frente de Gleisi, com 15%, e empatado com Alexandre Curi, enquanto Filipe Barros liderava com 25%. Como os paranaenses escolherão dois senadores, a retirada de um nome situado no grupo da frente reduz a concorrência efetiva pelas duas cadeiras e, por consequência, melhora o cenário relativo dos adversários que permanecem aptos; entre eles Gleisi e Dr. Rosinha. Isso não significa que os votos de Dallagnol sejam transferidos automaticamente aos petistas: eles podem migrar para qualquer outro candidato, ser anulados ou simplesmente deixar de ser depositados nele. Politicamente, contudo, a configuração da corrida mudou na última noite antes da eleição. Uma decisão de Floriano de Azevedo Marques, ministro nomeado por Lula em 2023 e novamente nomeado pelo Presidente em 2025, retira Dallagnol da disputa e produz um novo tabuleiro no qual Gleisi Hoffmann e Dr. Rosinha, ambos do PT, estão entre os candidatos que podem se beneficiar da redução da concorrência pelo Senado paranaense.