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Economia

Carne brasileira passa a pagar tarifa de 67% para entrar na China

03/10/2026 • 14:53 • Por Felipe Masid

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Brasil esgota cota anual de 1,106 milhão de toneladas e sobretaxa chinesa pressiona frigoríficos, que já estudam antecipar abates e embarques para 2027

A carne brasileira encontrou uma barreira bem mais pesada antes de chegar à mesa chinesa. Desde quinta-feira, 1, os embarques que ultrapassarem a cota estabelecida pela China passam a enfrentar uma tarifa total de 67%, resultado da soma da alíquota regular de 12% com uma cobrança adicional de 55%. O gatilho foi acionado porque o Brasil esgotou a cota anual de 1,106 milhão de toneladas estabelecida pelo governo chinês para 2026. A mudança atinge justamente o principal mercado externo da pecuária brasileira e acende um alerta entre frigoríficos e produtores, que agora precisam recalcular embarques, preços e estratégias para os próximos meses. O peso da China nesse negócio ajuda a dimensionar o tamanho do desafio: o Brasil responde atualmente por mais de 40% da carne bovina importada pelo país asiático, uma concentração que tornou o mercado chinês fundamental para o fluxo das exportações nacionais.

A relação comercial cresceu em velocidade impressionante na última década. Entre 2016 e 2025, o Brasil enviou 8,2 milhões de toneladas de carne bovina para a China, movimentando US$ 42,3 bilhões. Somente entre os extremos desse período, os embarques saltaram de 164,9 mil toneladas para 1,6 milhão de toneladas anuais. O sucesso comercial, porém, veio acompanhado de uma dependência cada vez maior desse comprador. Com a cota de 2026 atingida em 29 de setembro, qualquer volume adicional fica sujeito à sobretaxa. A medida faz parte de uma salvaguarda adotada por Pequim para proteger seus produtores diante do crescimento das importações e não é dirigida exclusivamente ao Brasil: outros países fornecedores também estão sujeitos a limites. Ainda assim, pela dimensão das vendas brasileiras ao mercado chinês, o impacto potencial sobre o setor nacional ganha proporções maiores.

2027 já entrou na conta

A preocupação agora está voltada para a próxima cota. Em 2027, o limite destinado ao Brasil aumentará para 1,128 milhão de toneladas, mas representantes do setor calculam que, mantido o ritmo das compras chinesas, esse volume poderá estar esgotado já em março ou abril. Diante dessa perspectiva, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) discute uma operação para ganhar tempo: antecipar abates para outubro, realizar embarques em novembro e aproveitar os 40 a 45 dias necessários para a travessia marítima até a China. Dessa forma, a carne chegaria aos portos chineses em janeiro e poderia ser contabilizada dentro da nova cota desde o início de sua vigência. A entidade também voltou a discutir com o governo brasileiro uma possível divisão da cota de 2027 entre frigoríficos, numa tentativa de distribuir os embarques ao longo do ano e evitar concentração excessiva do volume disponível em poucas empresas.

Os efeitos da restrição, porém, começaram a ser sentidos antes mesmo de o limite oficial ser alcançado. Frigoríficos já vinham reduzindo vendas para a China e procurando compradores em outros mercados, numa tentativa de diminuir a exposição ao novo sistema. A preocupação aumenta porque as exportações brasileiras de carne bovina em 2026 podem recuar cerca de 10% em relação a 2025, segundo estimativa da Abiec, em um cenário que inclui também restrições adotadas pela União Europeia. Ao mesmo tempo, Pequim enfrenta maior oferta doméstica e preços mais baixos da carne, fatores que ajudaram a embasar sua política de proteção aos produtores locais. A China ainda autorizou, em 29 de setembro, duas novas unidades brasileiras a exportar carne bovina, uma em Minas Gerais e outra em Pernambuco, mostrando que o acesso sanitário continua avançando mesmo com a limitação comercial. Para o setor brasileiro, entretanto, a matemática ficou mais complicada: depois de transformar a China em seu maior destino, o Brasil chega ao fim da cota com uma tarifa de 67% pela frente e com a corrida por espaço em 2027 começando antes mesmo de o novo ano chegar.

Felipe Masid
Colunista Oficial Felipe Masid

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