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Política

"Pilantra" de Lula doou R$50 mil ao PT

03/10/2026 • 13:16 • Por Leo Pinheiro

O Presidente Lula ao lado da lobista que ele nega conhecer; e (no detalhe) Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, chefe de gabinete da Presidência da República

Foto: Reprodução Instagram e Valter Campanato/Agência Brasil

Lobista que aparece em mensagens como “sócia” de Lulinha bancou dez ingressos de R$ 5 mil para jantar do com Lula, ministros e dirigentes petistas; mensagens também apontam interlocução da lobista com chefe de gabinete da Presidência da República

Entre o brinde de uma festa petista e o estampido de um “pilantra” presidencial existe uma conta de R$ 50 mil que agora reaparece sobre a mesa. Roberta Luchsinger, lobista que mais tarde seria xingada publicamente pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva de “pilantra” e “Vorcaro feminino”, teria destinado justamente esse valor à compra de ingressos para um jantar de arrecadação do PT realizado em Brasília, em março de 2024. A noite comemorava os 44 anos do partido e reuniu Lula, ministros, parlamentares, dirigentes e integrantes da legenda em um evento que também tinha como objetivo levantar recursos. Com cada convite vendido por R$ 5 mil, o montante associado a Luchsinger equivaleria a dez entradas. É essa fotografia de dois momentos tão distintos que dá ao episódio seu componente político mais intrigante: antes de se transformar em alvo de ataques contundentes do Presidente, a lobista aparece ligada financeiramente a uma celebração da sigla comandada pelo grupo político de Lula e mantendo interlocução com integrantes de seu governo. A aquisição dos ingressos não comprova proximidade pessoal com o Presidente nem qualquer irregularidade, mas acrescenta uma peça inesperada à sequência de relações e acontecimentos que posteriormente colocaria Luchsinger no centro de investigações e controvérsias em Brasília.

Os R$ 50 mil teriam sido divididos em cinco pagamentos realizados via Pix por terceiros, em transferências de diferentes valores, entre elas operações de R$ 10 mil, R$ 20 mil e R$ 5 mil. Mensagens atribuídas a Luchsinger indicam que ela teria tratado da aquisição dos ingressos com Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, que naquele período ocupava o cargo de secretário-executivo do Ministério da Saúde, posto considerado o número 2 da pasta, e atualmente exerce a função de chefe de gabinete adjunto da Presidência da República. Nas conversas, a lobista teria encaminhado comprovantes das transferências e demonstrado preocupação sobre a maneira como a operação seria formalizada e registrada. Em uma das mensagens, teria afirmado que a aquisição dos convites serviria para “apoiar a cota do Berger”, expressão que passou a despertar atenção diante da posição ocupada por ele dentro do governo. A movimentação financeira relatada, no entanto, não demonstra isoladamente a ocorrência de irregularidade, assim como a participação ou colaboração financeira em um evento de arrecadação partidária não configura, por si, prática ilícita. O episódio chama atenção principalmente por revelar uma rede de interlocuções que, naquele momento, colocava Luchsinger em contato com personagens que ocupavam posições relevantes na administração federal.

R$ 50 mil e uma história que voltou à mesa

O caso ganha uma camada adicional por causa da relação de Roberta Luchsinger com Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do Presidente. Mensagens de 2023 e 2024 mostram a lobista utilizando a palavra “sócio” ao se referir a Fábio Luís em determinadas conversas, elemento que passou a integrar questionamentos sobre a natureza da relação mantida entre os dois. A expressão, entretanto, não constitui prova de que tenha existido uma sociedade empresarial formal ou de que ambos tenham compartilhado negócios ou recursos financeiros. Em depoimento à Polícia Federal, Roberta Luchsinger afirmou que ela e Lulinha eram amigos e negou ter realizado repasses de dinheiro ao filho do Presidente. A relação aparece em meio a apurações sobre possíveis conexões entre agentes privados, intermediários e pessoas com trânsito político, incluindo suspeitas relacionadas a eventual tráfico de influência junto a órgãos públicos. Essas investigações ainda estão em andamento e não representam uma conclusão sobre responsabilidade criminal de Roberta, de Fábio Luís ou de outros personagens mencionados. Ainda assim, a combinação entre mensagens, interlocuções políticas e referências a negócios mantém o episódio sob escrutínio e amplia o interesse sobre a extensão das relações construídas pela lobista em Brasília.

A revelação sobre o jantar adiciona agora uma peça política a esse quebra-cabeça. Antes de ser publicamente atacada pelo Presidente, Roberta Luchsinger aparece associada a R$ 50 mil destinados à compra de dez ingressos para uma comemoração do PT que reuniu Lula, ministros, parlamentares e dirigentes da legenda. Tempos depois, o tom mudou radicalmente: Lula passou a se referir à lobista de maneira contundente, chamando-a de “pilantra” e utilizando a expressão “Vorcaro feminino”, em referência ao banqueiro Daniel Vorcaro. É justamente esse contraste que coloca o episódio novamente sob os holofotes. A compra dos ingressos não significa que Lula tivesse conhecimento da origem específica dos recursos, tampouco comprova o nível de intimidade pessoal entre o Presidente e Luchsinger. Da mesma forma, os elementos atualmente investigados precisam ser distinguidos de fatos já comprovados. O que emerge dessa sequência é uma mudança expressiva de cenário: uma personagem que aparece relacionada a uma contribuição de R$ 50 mil para um evento de arrecadação do partido do Presidente, apontada como sócia de Lulinha, e em interlocução com integrantes do governo acabaria, posteriormente, transformada em alvo de algumas das críticas públicas mais duras feitas por Lula; uma trajetória que vai da mesa de uma celebração petista ao centro de uma controvérsia política e investigativa. 

Leo Pinheiro