Nos últimos dias, dois assuntos aparentemente muito diferentes ocuparam espaço nas conversas dos brasileiros.
De um lado, o anúncio da proibição das chamadas bets, depois de anos de crescimento acelerado das apostas esportivas e de discussões sobre endividamento, dependência, e seus impactos sobre milhares de famílias. Do outro lado, estamos entrando na reta final de mais uma eleição presidencial. No próximo domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher, entre outros cargos, quem ocupará a Presidência da República pelos próximos quatro anos.
O que esses dois assuntos têm em comum com liderança?
Muito mais do que parece. Ambos nos fazem refletir sobre uma palavra que considero fundamental para qualquer líder: responsabilidade.
Vivemos em uma sociedade que oferece cada vez mais possibilidades de escolha. Escolhemos o que consumimos, onde investimos, em quem confiamos, o que compartilhamos nas redes sociais e, evidentemente, em quem votamos.
Mas liberdade de escolha e responsabilidade deveriam caminhar sempre juntas.
Nas empresas acontece exatamente a mesma coisa: quanto maior o cargo, maior a autonomia para decidir. Um presidente pode aprovar um investimento; um diretor pode contratar ou desligar pessoas; um conselho pode mudar a estratégia de uma organização; um empreendedor pode arriscar seu próprio patrimônio em uma nova ideia.
O verdadeiro teste da liderança, entretanto, começa depois da decisão. Porque decidir é exercer poder. Assumir as consequências é exercer liderança.
Ao longo de quase trinta anos em posições executivas, precisei tomar decisões difíceis em diferentes países, culturas, e contextos. Algumas produziram exatamente os resultados que imaginávamos; outras, não.
Com o tempo aprendi algo que nenhum MBA ensina completamente: não existe decisão relevante sem consequência, e não existe liderança madura sem responsabilidade por aquilo que decidimos.
Talvez seja justamente aí que possamos fazer uma reflexão sobre o momento que o Brasil vive.
O debate sobre as bets envolve questões legítimas e complexas. De um lado estão liberdade individual, atividade econômica, arrecadação, empresas, e empregos. Do outro estão preocupações com endividamento, dependência, e proteção de pessoas vulneráveis. Uma decisão pública dessa dimensão produz consequências econômicas e sociais que precisam ser acompanhadas e avaliadas ao longo do tempo.
A liderança responsável exige exatamente isso: olhar além da intenção e acompanhar os resultados concretos das decisões. Com o voto acontece algo semelhante.
Em períodos eleitorais somos bombardeados por discursos, vídeos, pesquisas, memes, promessas e, cada vez mais, conteúdos produzidos ou modificados por Inteligência Artificial. Nesse ambiente, talvez nossa maior responsabilidade como cidadãos seja resistir à tentação das respostas fáceis.
- Antes de compartilhar, verificar.
- Antes de repetir, compreender.
- Antes de escolher, comparar.
Não cabe a mim dizer em quem alguém deveria votar. Mas acredito profundamente que liderança começa quando assumimos responsabilidade pelas nossas próprias escolhas.
Vale para o presidente de uma multinacional; vale para quem administra uma pequena empresa; vale para quem decide fazer uma aposta. E vale para cada cidadão diante de uma urna!
Talvez este seja um bom momento para lembrarmos que democracia não deveria ser tratada como uma aposta em que escolhemos um nome e esperamos para ver o que acontece. Escolher exige informação; informação exige reflexão; e reflexão exige responsabilidade.
Porque uma das maiores diferenças entre simplesmente escolher e verdadeiramente liderar a própria vida está na disposição de assumir as consequências das decisões que tomamos.
No próximo domingo estaremos exercendo uma das formas mais importantes de responsabilidade individual dentro de uma sociedade.
E liderança, no final das contas, começa exatamente aí: na consciência de que toda escolha produz consequências.